domingo, 18 de dezembro de 2016

diário... mensal?

Meus passos IX

         Não coloquei nenhum título muito primoroso hoje pois a postagem será realmente pequena.
Faz quase um mês que não escrevo e notei que as postagens ficaram mais "espaçadas" entre uma e outra.
         Não deve ser à toa, já que me aproximo de quando entrei no doutorado, na área de neurofisiologia.
         Nunca imaginei que passaria nesta prova, pois dois meses antes, fizera uma cirurgia no olho - mais uma - em mais uma tentativa para baixar a pressão, e desta vez implantaram uma válvula no meu olho esquerdo que ajudaria a drenar o líquido e, consequentemente, baixar a pressão ocular.
         Pelo menos, foi "só" no olho esquerdo e, antes da cirurgia, eu até pensava "estou virando um ciborgue"; mas essas coisas são mais legais em filmes do que na vida real. A tal válvula não aparece, fica na parte de cima do olho, e às vezes incomoda.
          Na verdade o que mais me incomodou nem foi isso, e sim que tive que cancelar o doutorado.
          E, sobre isso, eu vou escrever mais adiante, pois digamos não ser meu assunto favorito.
         Existem coisas que são mais fáceis de digerir com o tempo (acho que quase tudo o que não gostamos).

         Para quem quiser saber mais sobre a válvula e como funciona, clique aqui

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Mestrado

Meus passos VIII – O Mestrado

          Demorei quase um mês para sentar aqui e escrever a continuação das coisas. Talvez seja mais difícil escrever sobre o que está acontecendo do que o que já aconteceu. Ou que a proximidade com o que acontece no presente me “trave” um pouco.
          Continuemos, a vida segue:
          Após a formação em Biologia, minha professora da cadeira de Fisiologia Animal Comparada, Drª Guendalina Turcato, perguntou se eu não tinha interesse em fazer mestrado. Como sempre gostei de estudar e desta área, fiz a prova e passei, no meio do ano de 2013.
          Meu mestrado teve foco na área da Fisiologia, logicamente, onde analisamos o efeito de um herbicida bastante utilizado no Estado e se seu uso implicava em alterações hepáticas e endócrinos de animais que ficam bastante expostos à ele, as rãs touro (Lithobates catesbeianus). O resumo e  o trabalho completo estão neste link: clique aqui.
          Como todos devem imaginar, é necessário ler muito durante o Mestrado, principalmente artigos. E ler artigos impressos não é das melhores tarefas para quem tem uma visão limitada: a letra é bem pequena, alguns são bastante extensos e, para completar, 95% são em inglês e com uso de termos técnicos.
          Porém, para (quase) tudo há um jeito: eu lia todos os artigos no tablet, em formato PDF, onde eu podia ampliá-los e tornar a leitura confortável. Na verdade, é desta maneira que eu leio tudo até hoje, sejam livros, revistas, jornais, pois não consigo mais ler de maneira impressa – a letra está muito pequena para mim e acabo fornçando demais.
          Esta parte estava resolvida, porém, a parte prática parecia mais complexa, já que precisaríamos retirar sangue e o fígado dos animais, para então medir os índices necessários.
          Falei “parecia” complicado pois realmente, se eu tivesse que fazer sozinha, seria impossível – medir  microlitros em uma pipeta exige uma visão que não possuo, além do manuseio em tubos de ensaio, espectrofotômetros e tudo o que exige visão aguçada. Mas, graças à compreensão da minha agora orientadora profª Guendalina, e também dos meus colegas que se dispuseram a trabalhar junto na pesquisa: Artur Navarro, Camila Miguel, Betânia Freitas, Patrícia Rodrigues, Bruna Dutra, Sarah Santos e Luiza Petroli. Eles foram, literalmente, meus olhos no Mestrado, sem eles eu não teria feito quase nada. Serei sempre agradecida.
          Eu sei que na área da pesquisa existe muita competição, e vi muita coisa que, sinceramente, eu achava que no Direito era pior. Soube de casos em que as pesquisas de um terceiro foram prejudicadas propositalmente, para que os resultados fossem alterados, vi pessoas querendo fazer tudo sozinhas, somente para que seus nomes ficassem em maior destaque nos artigos. Senti falta de compreensão de algumas, que chegaram ao ponto de dizer que minha doença era desculpa para não fazer isso ou aquilo na pesquisa. Estes fatores tornaram minha equipe mais especial ainda.
          Essas coisas – e dezenas de outras situações -  me mostraram que não podemos julgar as pessoas pelo curso que elas fazem, pela profissão que exercem. As pessoas são o que são por elas mesmas. Acredito que existam pessoas más. Que tenham nascido com esta índole, ou que durante seu crescimento e aprendizado sejam assim. Sei que muitos dizem que não existem pessoas más. Na minha opinião, existem sim, e são as mais difíceis de mudar, pois a maldade parece fascinar, devido a sua ilusão de poder.
          Bem, voltando ao mestrado.
          Eu finalizei tudo no prazo de dois anos, em meados de 2015. E tive que finalizar, afinal, a pressão do olho novamente voltara a subir e eu teria que fazer outra cirurgia (isso está ficando repetitivo). Desta vez seria implantado algo como uma “sonda” no meu olho, que ajuda na drenagem de maneira mais efetiva.

          Explicarei na próxima postagem, que prometo será em breve.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cirurgias, o início

Meus passos VII - Cirurgias, o início


O que deixamos para trás e o que nos espera adiante pouco importam se comparados com o que existe dentro de nós” – Ralph Waldo Emerson

          E então que a pressão do meu olho estava subindo novamente, após muito tempo dela estar controlada.
          Tentamos trocar de colírios e não responderam.
          A solução seria a cirurgia, semelhante àquela que eu havia feito quando criança, que contei neste post , porém a diferença é que desta vez teriam que ser duas cirurgias, uma vez em cada olho, devido a ele ser mais velho e para diminuir as chances de algum problema neste órgão tão delicado. Outra diferença é que nesta a anestesia não seria geral, e sim por sedação, para que eu estivesse consciente na hora.
          Um corte seria feito na esclerótica do meu olho (a parte branca, na porção superior) para que houvesse uma melhor drenagem do líquido e então, a baixa da pressão.

          Confesso que, no momento da intervenção cirúrgica, me senti um pouco assim:


          Explico: eu estava sedada, e na maior parte do procedimento, dormi. Porém, na parte final, mesmo sem sentir nenhuma dor, eu conseguia ver os médicos (representados pelos extraterrestres, carinhosamente) vindo em minha direção com o bisturi e tesoura, e o que eles falavam, como “corta este ponto próximo a esta região” (no caso, o ponto estava no meu olho). Foi muito rápido, mas esses momentos parecem durar uma eternidade, direi que foi agonizante em alguns momentos.
          A primeira cirurgia foi no olho esquerdo, no dia 15 de julho de 2012 – data que não esqueço pois é aniversário da Dr Paula (minha oftalmologista), e a segunda, do olho direito, foi em 4 de fevereiro de 2013 – aniversário da minha mãe. Infelizmente eram estas as datas disponíveis, e certamente não as teria escolhido se pudesse.
          Acordei na sala de recuperação e fomos embora, e a parte mais chata começaria, o pós-operatório.
          O problema maior da recuperação é que não se pode fazer praticamente nada. Esforço, zero – sem academia por um bom tempo, cerca de 3 meses. E a visão totalmente distorcida – eu até preferia permanecer com um tapa olho e só enxergar com o olho que não havia sido submetido ao procedimento a enxergar com os dois.
          Além disso, as dores no olho, limpezas (que me deixavam bastante ansiosa, não gosto de mexer muito nos olhos) e colírios a cada 2 horas na fase inicial. As dores diminuíam com Tylenol 750mg, um a cada 4 horas. Porém, quando era muito forte, somente o Tylex aliviava, mas provocava muito sono – o que, em uma recuperação nem era tão ruim. Bem, toda esta chatice permaneceu por quase 2 meses.
          Acho que assisti a todos os filmes novos, antigos e repetidos que existem. Evidentemente que dublados – e até hoje assisto assim, pois legendados teria que escolher olhar para o filme ou as legendas, devido a limitação do campo visual (que expliquei nesta postagem). Engordei uns dois quilos – que perdi depois, felizmente – pois comia bastante, já que as atividades eram bastante restritas.
          E a faculdade?
          Os professores foram extremamente compreensivos e todos – sem exceção – enviavam o material para o meu e-mail ou disponibilizavam no moodle (local de acesso aos alunos).
          Depois de 2 meses, eu ainda não podia me expor muito na rua mas já conseguia ler, e este material foi extremamente importante para que eu pudesse acompanhar o semestre.
          A recuperação das duas cirurgias foi semelhante, e consegui finalmente terminar a faculdade de Biologia – minha segunda faculdade. Porém, neste período, eu já havia perdido um pouco mais do campo visual, como já dito em postagens anteriores, e tive que me adaptar a esta nova realidade.
          Felizmente, hoje em dia existem muitos meios que facilitam a qualidade de vida mesmo de quem estava acostumada com uma certa visão – que já não era muita – e deve adaptar-se a uma pior.
          Falarei mais destas possibilidades em breve, e como elas me ajudaram a cursar o Mestrado, além das pessoas que me ajudaram muito nesta caminhada.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Dúvidas sobre o glaucoma

Durante minhas postagens, algumas pessoas já vieram me perguntar algumas questões sobre o Glaucoma, que estão sendo respondidas com o decorrer do tempo e principalmente no tópico “Meus Passos” (que, basicamente, contam minha história com a doença). Porém, como a história é longa e nem sempre temos tempo de ler tudo, resolvi fazer esta postagem com as dúvidas mais frequentes que têm aparecido. Fiquem à vontade para perguntar o que desejarem no campo de comentários ou via facebook.


          O glaucoma tem cura?
          Até o dia de hoje, 18 de outubro de 2016, não. O glaucoma tem controle, para que não haja piora, mas infelizmente, a parte  da visão que foi perdida não pode ser recuperada.
         
          Por quê?
          Ainda não existe nenhum procedimento cirúrgico que atue na regeneração do nervo óptico, que é justamente onde há a maior lesão no glaucoma. Além disso, células da retina também são perdidas, e, mesmo que algumas pudessem ser recuperadas, o nervo não levaria os sinais destas células para o cérebro, já que este não possui regeneração.

          Cirurgias como transplante de córnea não adiantam?
          Não. Como explicado acima, o glaucoma afeta o nervo óptico principalmente, e o problema causado não tem relação com a córnea.

          Minha tia/vó/vizinha/etc tinha glaucoma e curou, como o teu não?
          O glaucoma não tem cura, porém, em alguns casos, ele é detectado antes que haja a perda da visão (ou houve perda muito pequena), e como a identificação ocorreu cedo, o uso de colírios consegue manter a pressão ocular baixa e não há mais perda. Se houve perda e a pessoa recuperou, ou não era glaucoma, ou me apresente o caso!!

          As pessoas que conheço que tem glaucoma são “velhas”, como você tem desde criança?
          Realmente, a maioria dos casos identificados ainda é em pessoas acima de 55-60 anos. Por óbvio, o olho já está mais velho e a drenagem e controle da pressão já não são tão eficazes. No meu caso, e casos de pessoas que tem a doença ainda jovem, pode ter havido por herança genética ou fatores externos, como uso de altas doses de corticoides (como mostra este artigo) , uso demasiado de força quando há predisposição ou fatores ainda não tão conhecidos.

          Fazer exercício físico faz mal para o glaucoma?
          Depende do tipo de exercício e da predisposição  e do caso. No meu caso, e casos em que não é recomendado usar a “força de valsalva”(força que fizemos com a parte superior do abdome, próximo ao tórax), exercícios mais pesados e com uso constante do abdome não são recomendados. Infelizmente, tive que parar o Jiu Jitsu, que pratiquei por 5 anos, por isso. Porém, faço Muay Thai e  treino funcional sem problemas. Inclusive, exercícios aeróbicos (como corrida, pular corda e que demandam muita energia) são  bastante recomendados, pois até ajudam a baixar a pressão intraocular.



domingo, 16 de outubro de 2016

Artigo - Vinho e os benefícios para o glaucoma

Tomar vinho tinto pode ajudar em doenças relacionadas à visão

          Além dos benefícios que já se sabe que o vinho (principalmente o tinto) traz na prevenção e manutenção de algumas doenças cardiovasculares, diabetes, etc., algumas doenças ligadas à visão, como o Glaucoma e a catarata podem ter uma ajudinha do resveratrol - substância antioxidante presente principalmente no vinho tinto. 
          Não vamos esquecer que devemos beber com moderação, uma taça ao dia é o recomendado.
          O artigo abaixo, deste ano, nos traz de maneira científica, como esta substância pode estar ajudando no controle e prevenção de doenças.
         Clique na imagem para ler o artigo na íntegra.



Resveratrol e Doenças Oftalmológicas (EN) Khaled K. Abu-Amero et al. Ano: 2016

          Espero que gostem, e apreciem com moderação!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Artigos

A partir de hoje, trarei artigos publicados em revistas científicas internacionais ou nacionais que tratem sobre o tema glaucoma.
Todos eles ficarão disponíveis na seção "Artigos" (Menu acima).
Atenção: A língua do artigo ficará entre parênteses, (EN) para Inglês e (PT) para Português, sendo a grande maioria em Inglês.

Clique nas imagens para ler o artigo completo em PDF.

 
Efeitos dos glicocorticóides na rede trabecular: Direções para um melhor entendimento do Glaucoma (EN) Robert J. Wordinger e Abbot F. Clark Ano: 1999
Trata-se de um artigo antigo, porém esclarece algumas questões sobre o uso de corticóides e seu papel no desenvolvimento do glaucoma.  

Glossário

Rede trabecular: de modo simples, a rede trabecular é a área de filtração do olho, assim, quando esta rede não está filtrando de maneira adequada os líquidos produzidos pelo olho, a pressão intraocular pode aumentar. Acredita-se que alguns glicocorticóides possam interferir nesta drenagem, o que maximizaria as chances de glaucoma.

Glicocorticóides: são hormônio esteróides, sintetizados pela glândula adrenal (acima dos rins) que afetam o metabolismo dos carboidratos, e reduzem a resposta inflamatória, etre outras funções. Estes hormônios são produzidos naturalmente pelo nosso organismo e sua quantidade varia entre manhã (alta produção) e noite (baixa produção), além da possibilidade de haver alterações conforme níveis de estresse, lesões, infecções, calor ou frio.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Mais mudanças

Meus passos VI – Mais mudanças
          “Você sabe que quanto mais próximo estiver do seu destino, mais se deixará levar para longe dele” – Paul Simon
          No início deste século, terminei a escola e decidi fazer Faculdade de Biologia. Meu objetivo era estudar Direito Ambiental, proteger principalmente os animais. Eu lia muitas revistas de ciência no colégio, como National Geographic e a Superinteressante, que naquela época eu considerava científica. Lembro de outras revistas, como “Os caminhos da Terra”. Hoje eu ainda leio, porém as revistas mudaram – segue a National Geographic, mas somei à esta, Scientific American, Astronomy, Nature, Science, etc., e também o modo: agora eu as leio no tablet. Com o sucessivo desgaste da minha visão e a perda gradual desta, não consigo mais lê-las na forma impressa, enquanto que no tablet posso dar zoom. Bem, retornando ao assunto do início, estas revistas me motivaram muito para o lado da ciência e, como eu queria proteger o que tínhamos na natureza, também resolvi fazer Direito.
          Era de se esperar que eu não conseguisse fazer dois cursos ao mesmo tempo – sei que algumas pessoas o fazem, mas não me encaixo neste nível superior de humanidade – e eu acabei decidindo permanecer no Direito, devido às oportunidades que este poderia oferecer – maiores chances de concursos, mais vagas em empregos e, sem ser hipócrita, melhores chances de salário mais robustos.
          Além disso – lamentavelmente - dois professores da Biologia não mantinham minha motivação muito alta, digamos assim.
          Como expliquei em posts anteriores, meus olhos enxergam de maneira complementar, ou seja, um “ajuda” o outro, focando de maneira única e mantendo a musculatura ao redor do olho contraída, de maneira que juntos, minha visão torna-se aceitável em diversas situações. No caso do uso de microscópio, esta situação não encaixava-se no aceitável. Como muitos sabem, os microscópios possuem duas oculares, e, quando você gira os botões de foco nas laterais, teoricamente tudo se ajeita.
          Não no meu caso.
          O foco nunca é alcançado, e, quando está próximo de ser bom, a visão é tão forçada que sinto dores muito fortes, o que me levou mais uma vez ao meu antigo oftalmologista. Ele disse que eu não conseguiria ter foco em um microscópio, e a explicação dada foi a que me referi antes. Ele forneceu um atestado, o qual eu entreguei na Secretaria do curso, e fiquei com cópias para mostrar aos professores, que deveriam encontrar métodos alternativos para suprir as aulas práticas que usavam este aparelho.
          A grande maioria aceitou e achamos soluções viáveis – ou conectávamos o microscópio a uma televisão, o que para mim era a melhor solução, ou eu recebia material com os desenhos do que deveria estar vendo no microscópio. Dois professores resolveram acumular a parte prática na prova teórica, o que não teria problema algum, caso eu, mesmo presente nas aulas práticas (o que, no meu caso não era necessário obviamente), não precisasse ouvir algumas “brincadeirinhas”, que no fundo você sente que não são de todo somente brincadeirinhas, como por exemplo: “A Mariana vem com este atestado só para poder matar aula prática desta cadeira”, entre outras. Pena que este tipo de fala não foi somente uma ou duas vezes. A mais motivadora foi “Mariana tu não tens condições de te formares em Biologia se não puderes utilizar um microscópio”.
          Vejamos, eu era bem mais nova, estava cansada de fazer duas faculdades e em uma delas, apesar de ter o lado motivador, existiam estas pessoas que, naquele tempo, acabaram influenciando para que eu optasse pelo Direito. E, complementando, eu não sabia muito sobre meus direitos, além de desconhecer muito das leis que poderiam ter fornecido um maior aporte.
          A história do Direito vocês já conhecem, e sabem que fui para São Paulo quando estava já formada e trabalhando na área. E também que eu tomaria decisões após aqueles ocorridos. Sim, eu resolvi retornar à Biologia.

          Antes de continuar, preciso fazer uma pausa aqui. Após retornar de São Paulo, voltei ao Dr. Araújo, meu primeiro oftalmologista, que achou melhor uma profissional especializada diretamente em glaucoma cuidasse de mim, pois estava em um patamar delicado e seria preferível que ela abordasse meu caso. A partir deste momento, a excelente Drª Paula Gross, médica oftalmologista especialista e mestre em glaucoma, vêm tratando minha visão da melhor maneira que é possível.
          Ela me explicou um pouco mais sobre meu problema, sem deixar de me incentivar sempre e que eu não desistisse do que eu gostaria de fazer, e eu sou muito grata por isto, mesmo tendo meus momentos nem sempre tão esperançosos.
          Enfim.
         
           Depois de ter cursado aproximadamente um ano e meio, faltavam 2 anos e meio a 3 anos para concluir a Faculdade de Ciências Biológicas, agora conhecedora dos meus direitos e, mais importante do que isso, de alguns limites que eu teria.
          A maioria das minhas provas eram ampliadas e preferencialmente em negrito, devido a um contraste maior, facilitando a leitura. A fonte ideal era Arial de tamanho 14 ou 16, o que ainda permanece quando preciso ler de forma impressa.
          As aulas práticas foram elaboradas da maneira mais adequada e o caminho parecia estar sendo bem trilhado.
          Passado cerca de um ano do meu retorno à Biologia, com visitas trimestrais ao médico, a pressão ocular de ambos os olhos voltou a subir.

          É difícil dizer que fatores diretamente afetam a pressão do olho; um conhecido é o esforço contínuo repetido, na região supra abdominal, próximo ao osso esterno, localizado entre as costelas (região destacada da figura abaixo). O esforço contínuo nesta região é chamado tecnicamente de Manobra de Valsalva. Executamos esta manobra, por exemplo, quando levantamos muito peso com os braços, e esforços que utilizam a região torácica. 
          
Fonte: modificado de Sogab – Ensino e Saúde

          Não era o meu caso. Eu já havia deixado de praticar jiu jitsu há algum tempo, justamente por esta recomendação, e, como referi, na maioria dos casos é complicado dizer o porquê da suba da pressão. Aumento de hormônios corticoides também podem auxiliar no incremento da Pressão Intraocular (PI), como mostram alguns estudos (em breve postarei artigos relacionados ao tema), o que talvez fosse meu caso. A questão é que a pressão estava aumentando e tentamos controlá-la com novos colírios. Caso a resposta não fosse positiva – ou seja, diminuição da PI – a solução seria a que, naquele momento, foi – cirurgia.
          Desta vez seria diferente da primeira e eu ainda lembro delas.
          Próxima postagem, relatarei o que se seguiu.

          Obrigada novamente a todos que vêm acompanhando minha história!
          

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Começam as Mudanças

Meus passos V – Começam as mudanças

“A dor pode nos fazer lembrar que estamos vivos, mas o amor nos faz lembrar por quê” – Trystan Owaln Hughes

          Primeiramente, me desculpem pela demora em escrever este post, minha visão nem sempre coopera com o tempo dos meus pensamentos.
          Bem, contava eu que uma situação em particular, no meu emprego de advogada júnior em um escritório de Porto Alegre, havia mostrado que eu realmente não podia agir de maneira como uma pessoa de visão estável.
          Eu trabalhava oito horas ao dia, com intervalo de 1 hora e meia para almoço, em um escritório muito bonito, amplo e conhecido. Foi meu primeiro emprego, excetuando os estágios, depois da minha formatura em Direito. Eu tinha um bom salário para quem havia a recém saído da universidade e fui chamada bem rápido para a entrevista. Confesso que, na sala em que eu estava, não era a mais comunicativa, ficava mais “na minha” e não socializava tanto quanto a maioria das colegas. Não costumo compartilhar minha vida pessoal com muitas pessoas – a primeira vez que faço isso é agora, justamente em um blog que qualquer pessoa pode ler, vejam a ironia das coisas.
          Depois de alguns meses de trabalho, na verdade quase um ano, em um dia comum, fui na agência bancária que ficava no térreo do prédio, retirar meu salário. Estava eu sentada aguardando meu número ser chamado, porém, quando olhei para o placar onde mostrava os números – daqueles placares pretos com grandes letras e números vermelhos – só enxerguei algo embaçado, com algumas luzes no meio, mas não conseguia distinguir o que era. Mexi no olho, nada. Virei a cabeça para os lados e as pessoas também estavam embaçadas. Naquele momento, fiquei assustada.
          Peguei meu celular, na época com teclas, o que facilitou para eu discar sem precisar da ajuda das outras pessoas, e telefonei para uma das minhas colegas do escritório, pedindo que ela fosse até o banco e me ajudasse, pois estava com algum problema na visão.
          Ela desceu e resolvemos chamar um táxi, minha mãe estava em casa e era para lá que eu voltaria naquele dia.
          Fomos ao médico, meu antigo oftalmologista, no mesmo dia.
          Ele fez alguns exames, mediu a pressão, verificou o fundo do olho (este exame observa o estado da retina, a camada mais interna do olho), e disse que provavelmente eu estava com fadiga no nervo óptico, e que, se fosse isso realmente, a sensação iria passar em 3 a 5 dias. Complementou que, mesmo assim, achava que eu deveria consultar com um colega, em São Paulo, especialista em glaucoma, o Dr. Imamura, pois ele teria melhores meios para saber se havia alguma lesão mais grave ou se era realmente fadiga.
          Então, decidimos ir para São Paulo.
          Até o momento, eu não estava preocupada.a visão embaçada havia passado e parecia que realmente era apenas uma fadiga ocular. Falei com o pessoal responsável do escritório, que ficaria cerca de uma semana fora, e fomos.
          No médico, fiz diversos exames, alguns já velhos conhecidos, como medida de pressão, exame de fundo de olho, campimetria computadorizada (aquela que eu detesto, e descrevi neste post) e mais alguns que eu nunca havia feito, inclusive de acuidade visual. Sobre estes exames falarei futuramente.
          Conversei com o médico e ele me explicou melhor as coisas, e ali começava a “cair a ficha” do que eu tinha e do que viria.
          Como o Dr. Araújo, meu oftalmologista desde que eu era criança havia dito, tive uma fadiga ocular, por esforço contínuo, que, nesta ocasião, não levaram à lesão do nervo óptico, mas que, se repetido o esforço, meu nervo seria ainda mais prejudicado e eu poderia perder áreas da visão. Como já disse algumas vezes, meu nervo óptico possui lesões devido ao glaucoma, e não posso me dar ao luxo de arriscar mais.
          Oito horas de trabalho por dia são insuportáveis para meus olhos, eu poderia suportar, no máximo, 4 horas ao dia, e sem grandes esforços. E nem sempre todos os dias, devido ao cansaço. 
          Descobri também que minha visão, em algumas situações, ficava melhor sem óculos do que com. Isso devia-se ao fato de que meus olhos enxergam de maneira diferente, como expliquei na postagem passada, onde o esquerdo possui mais campo porém qualidade pior, e o direito possui uma melhor acuidade mas campo visual menor. Para enxergar, por exemplo, letras pequenas e próximas, meus olhos fazem um ajuste que, com óculos, fica prejudicado. Meus olhos deram um jeito de focar de uma maneira que, com os óculos, este foco fica prejudicado.
          Aprendi que a partir deste momento, meus hábitos teriam que mudar. Eu teria que descansar a visão em períodos de tempo durante leituras ou qualquer esforço visual – vejam o que isto significa para quem formou-se em Direito, onde a leitura é imprescindível.
          Senti que não poderia mais trabalhar como vinha fazendo, e que talvez não pudesse seguir no mesmo local de trabalho.
          Recebi proposta de trabalho de outro escritório, este menor, mas onde eu trabalharia menos tempo por dia, e parecia ser mais tranquilo. Era o que eu precisava no momento.

          Tomei algumas outras decisões, que mudaram bastante o que eu estava fazendo. Voltei para a Faculdade de Biologia, que eu havia iniciado junto com o Direito e abandonado dois anos depois.  Mas isto eu conto no próximo post, pois também será longo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O "Stand by" da visão

Meus passos IV - O "Stand by" da visão

Terminei a postagem passada falando sobre o não reconhecimento das pessoas.
          Sempre tive dificuldade nisso, porém, durante a faculdade de Direito – no último ano, isso piorou. Eu seguidamente confundia as pessoas, algumas até ficavam indignadas – e com razão, eu as trocava com pessoas totalmente diferentes. Quando alguma amiga então, trocava a cor do cabelo, me confundia muito.
          Porém, quando as pessoas estavam paradas, eu as distinguo bem. Por quê?

          Bem, além da perda periférica considerável devido ao glaucoma, este também prejudicou bastante a acuidade visual, ou seja, a qualidade da minha visão, e gerou um pouco de astigmatismo. O astigmatismo, por si só, é reversível com o uso de óculos -  e de vez em quando eu uso – mas, no post anterior expliquei que no olho direito e no esquerdo, meu tipo de visão é diferente, e que os dois trabalham juntos para que eu tenha uma visão relativamente razoável. Neste “trabalham juntos” é que entra o que eu chamo de “stand by” da minha visão, ou seja, eu demoro para focalizar uma imagem, como uma câmera com foco automático.
Figura de uma imagem desfocada e logo após, com foco Fonte: Blog aberto até de madrugada

          A imagem da esquerda mostra como muitas pessoas – inclusive eu – com glaucoma enxergam quando visualizam algo rapidamente, e na direita, após alguns segundos fixando a imagem (provavelmente não perfeitamente como você leitor, esteja vendo, mas pensemos nas proporções). Existe um tempo que demoramos para fixar a imagem, para focalizá-la da maneira ideal para cada caso, e este é o “stand by” que me refiro. Óculos não conserta isso no meu caso. Deixa um pouco mais nítido do que se eu não usar, mas como existe este stand by, na maioria das vezes até atrapalha, razão pela qual, uso óculos somente em ambientes “parados”, como para assistir televisão.
          Sim, na televisão há movimentos dos personagens, objetos, etc., porém, aí entra outra diferença: na televisão, as imagens são em 2 dimensões (depois falarei do efeito 3D no meu caso), e isso facilita muito.
          Devido às lesões das células da retina, como explicado em posts iniciais, chamadas de cones e bastonetes principalmente, a noção de profundidade também foi afetada. Assim, além do stand by, há uma dificuldade na distinção da profundidade e distância de objetos – um somatório de coisas!!
          Essa perda de profundidade faz com que eu não tenha uma noção de tamanhos de buracos, por exemplo, ou quando vou descer escadas, a não ser que elas tenham marcações amarelas, que facilitam bastante.
          Todos esses fatores foram aumentando com a idade, dificultando a minha visualização em diversos setores e, obviamente, prejudicando minha qualidade de vida de modo geral. Afinal, quando você não reconhece alguém na rua, normalmente não há tempo para explicar todos estes fatores, e nem sempre intimidade suficiente. “Então, acaba resumindo-se a um “desculpe não te reconheci” e, dependendo da pessoa, a resposta “está precisando de óculos”.
          Falando em idade, deixo claro aqui que meu olho não funciona conforme minha idade real, mas trata-se de um olho com “mais idade”, um olho semelhante a de uma pessoa bem mais velha, e assim, as coisas tendem a funcionar ou melhor, deixar de funcionar, mais rapidamente. E este foi um fator importante para que por volta de 2007, no último ano da Faculdade de Direito, eu começasse a usar material ampliado ou que eu pudesse ler no computador.
          Naquele ano, resolvi entrar no site da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), onde eu estudava, e pesquisar sobre os direitos de pessoas com dificuldade neste quesito. Acabei por descobrir que alunos chamados especiais tem direito a receber material ampliado, e que a Faculdade deve se adequar às dificuldades do aluno, o que considero bastante justo e de acordo com o artigo 5º da Consituição Federal, que define a igualdade de direitos; do contrário seria obviamente impossível.
          Descobri também, o Decreto Lei que define os direitos de deficientes, incluindo os visuais, e que a conceitua:
Artigo 5º §1º I letra “c”: “c) deficiência visual: cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores”
          Me encaixo neste caso e grande parte das pessoas com glaucoma também. Aconselho que, aqueles que se encaixam, saibam dos seus direitos, pois são vários e bastante importantes. Em breve farei uma postagem direcionada para isto, pois se essa doença não é nada agradável, podemos torna-la mais aceitável, afinal, os direitos estão aí para melhorar nossa qualidade de vida.
          Nunca tive grandes incomodações em relação aos meus direitos dentro da faculdade. Evidente que um ou outro professor duvidam da sua palavra e eu precisava mostrar meu laudo médico para comprovar o que tenho. Não sei com qual objetivo ou qual seria a vantagem de eu pedir uma prova ampliada, mas infelizmente estamos rodeados de pessoas criativas e que usariam isto, de alguma maneira, em benefício próprio.
          Finalmente, com alguma dificuldade, consegui terminar a Faculdade de Direito e inicie minha carreira em um escritório de advocacia, como advogada júnior.
          Como eu não havia, ainda, digerido muito bem a idéia de que a minha visão estava pior, trabalhei 8 horas por dia, como todos os colegas, somente explicando que nem sempre reconheceria a todos imediatamente, e relatando meu problema de maneira superficial.
          Até o dia que meu olho definitivamente deu “erro” e parou, tudo ficou nebuloso e eu não conseguia ler nada na minha frente, estava tudo embaçado e fora de foco.
          Isto sim, faria com que eu realmente precisasse me ater ao problema e aceitá-lo, fosse o que fosse. Mas isto eu conto na próxima postagem.

          Muito obrigada pela visita e aguardo vocês em breve!

domingo, 18 de setembro de 2016

Meus passos III – A tal da Campimetria Computadorizada

          Olá e bem vindos novamente!          
          Como eu contei no post passado, desde muito cedo faço principalmente dois exames para verificar o andamento do glaucoma. Um deles, a “curva de pressão” (uma vez por ano) e a Campimetria (de uns 20 anos para cá, computadorizada, tenho que repetir cerca de 3 a 4 vezes ao ano). Este serve para analisar especificamente o campo visual do paciente, através de uma máquina onde você senta, apoia o queixo, um dos seus olhos é vendado e você deve olhar para um ponto fixo central no meio de um microambiente, sem desviar o olho em nenhum momento e clicando em um botão, que fica na sua mão, a cada sinal de luz, seja ele forte ou fraco, ao redor deste ponto fixo.
          Tudo bem, vou explicar melhor, assim parece fácil e até lembra o que os oftalmologistas e seus auxiliares gostam de dizer que “parece um videogame”. Não, não parece.

          Isso:

          E, quando comecei a fazer este exame, pelos anos 90, isso:

          São jogos de videogames.
          Agora uma imagem do que vemos no exame de campimetria:

          Bem, foi a imagem “menos pior” que encontrei, mas prometo que, quando eu for fazer este exame de novo, farei fotos e quem sabe um vídeo de como realmente é. De uma ou outra forma, acho que está longe de parecer um videogame. Nem um Telejogo, que me perdoem os saudosistas.
          Ali na parte central, onde está um círculo preto, é onde tenho que ficar olhando. Ao redor deste ponto, piscarão pequenos pontos de luz, em maior ou menor intensidade, acima, ao lado, embaixo. O olho deve permanecer fixo no meio, pois a cada mexida, por menor que seja, o computador identificará e caso estes desvios se repitam 3 vezes, é recomendável fazer o exame novamente.
          Cada vez que uma luz destas pisca, mesmo que seja muito fraco, devo apertar um botão, que estã na minha mão, em um tipo de pequeno manche. O computadpr repete os pontos periodicamente, isso faz com que ele saiba se vi realmente o ponto ou se achei que vi. Cada olho leva cerca de 20 minutos nesta “brincadeira”, e sempre com o olho fixo. Como já falei e volto a repetir,é bastante cansativo.
          Falando em cansativo, este exame é recomendado que seja feito quando a pessoa está bem descansada, e acredito que os motivos sejam óbvios – já é algo chato quando estou bem acordada, se estivesse cansada provavelmente dormiria.
          Algumas vezes, de tanto fixar no ponto,a visão vai ficando escura, e não posso fazer nada além de piscar os olhos. Mas é um exame necessário para quem tem esta doença.
          Após o seu término, a máquina imprime o resultado, que, no meu caso, foi este (em meados deste ano):


          A esquerda o olho esquerdo, a direita o olho direito. O resultado principal é aquele círculo quase totalmente escuro, que representa o campo visual que a máquina apresenta. O campo visual que enxergo é a parte mais clara. A parte em preto é o que não detectei. Ou seja, onde perdi o campo visual. Em uma visão não-glaucômica, o campo ficará quase totalmente branco.
          Olhando assim, significa que meu campo inferior é praticamente cego e minha visão direita tem um campo muito menor. Porém, através de outros exames, como o P.A.M. (explicarei em posts posteriores), verificou-se que a visão da esquerda, apesar de ter um maior campo, tem uma qualidade pior, uma acuidade baixa, enquanto que o olho direito, apesar de um campo visual menor, possui uma acuidade melhor. Juntamos os dois e temos a visão dos meus olhos. É pouca, mas ainda me permite escrever aqui.
          Em termos de campo visual, este tem se mantido; faço este exame desde muito jovem, logo após a primeira cirurgia, e os resultados não eram tão diferentes. Meu campo era maior, sim, mas pouca coisa. Infelizmente, para quem já tem pouco, retirar um mínimo já é muito. E por volta de 2007 eu senti isso, quando fazia faculdade de Direito na PUCRS. Pela primeira vez tive que pedir uma prova ampliada ao professor, e finalmente comecei a entender meus direitos e limitações dentro desta situação, o que nunca poderei reclamar da Universidade, que sempre forneceu todo o tipo de material que precisei nestes momentos.
          Com dificuldade eu ainda conseguia ler os artigos das leis nos infinitos Vade Mecums, mas não demorou muito para que eu precisasse comprar uma lupa em formato de régua, feita para ler livros. Mas isso não era desconfortável, o chato era não reconhecer as pessoas que passavam por mim, e algumas pensando que eu não lhes dava “olá” por antipatia...
          No próximo dia eu continuo, esta parte merece uma postagem à parte.
          E muito obrigada novamente à força que muitos tem me dado, está sendo muito importante para mim e sempre que quiserem tirar dúvidas, me chamem por e-mail (marianasony@gmail.com) ou pelo facebook, Mariana Coltro.
          Até a próxima!

          

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Meus passos - II

Olá
          Anteontem resolvi escrever alguns fatores mais técnicos do glaucoma em si, mas confesso que prefiro escrever sobre mim e o meu caso especificamente. Claro que segurei explicando fatores mais técnicos quando estes se fizerem necessários, mas hoje quero seguir com a minha história.
          Eu não lembro muito bem da minha primeira cirurgia, e como nosso cérebro é bem seletivo nesse setor, lembro apenas de uma parte ruim: logo que acordei. Diferente das intervenções que viriam depois, esta primeira, devido à gravidade da situação, foi feita nos dois olhos na mesma cirurgia. Lembro apenas de acordar e ver algo branco.
          Eram as gazes em cima dos meus olhos, que formavam o curativo.
          Havia também uma pomada, que não permitiam que eu abrisse tanto assim os olhos. Foi uma sensação chata, mas logo que acordei meus pais falaram comigo e depois disso, eu não lembro muito de como foi a recuperação. Lembro das mais recentes, que foram bastante incômodas e aquela sensação de que nunca vai acabar. Mas isso eu conto mais adiante.
          As coisas boas dessa primeira operação eu lembro melhor, como as visitas em casa, meus amigos e parentes e dos presentes. Claro que não poderia esquecer dos presentes, principalmente o que meu pai me deu, um kart vermelho que funcionava com pedais, todo de metal, rodas de borracha, banco forrado e até luzes. Isso deixou pra trás um pouco de todo o desconforto.
          Mas eu tinha que voltar ao colégio, e vocês sabem como o colégio é. Como os seus colegas de colégio são. Principalmente se temos um problema que nós mesmos não sabemos explicar.
          Era o meu caso, eu tinha um problema de visão que os óculos não resolviam, que não é visível aos outros mas que eu preciso de mais cuidados do que muitos.

          Uma pequena parada: por que o óculos não resolvem? (dezenas já me perguntaram isso) Bem, o óculos resolve os problemas com  miopia, astigmatismo, hipermetropia, etc., que são problemas de foco ou ajuste da lente; o glaucoma é um tipo de cegueira, onde a visão perdida, está perdida, a porção de células da retina ou de células do nervo óptico foram destruídos ou lesados gravemente. Assim, o óculos não tem como criar uma imagem que simplesmente não é vista pelo olho e processada pelo cérebro.
          O que ocorre, em muitos casos, inclusive no meu, é que, juntamente com o glaucoma, surgem outras complicações, como o astigmatismo, e então, usamos um óculos para este “defeito”, tornando a visão mais nítida, mas não a parte do glaucoma, e sim do astigmatismo (ou miopia, ou outra que tenha correção) 

E então que, voltando à escola, eu tinha que sentar na frente. Eu tinha que ter lugar exclusivo, no meio e na frente, o mais próximo possível do quadro negro.
          Por que no meio? Bem, aqui mais uma parada.
          O glaucoma faz com que você perca, inicialmente, a parte periférica da visão, e ela vai sendo perdida de fora para dentro, logo, seu campo visual vai se restringindo ao campo central. Como eu nunca enxerguei com total campo de visão (ou se enxerguei era muito criança e não lembro), é difícil fazer um comparativo com pessoas que possuem uma visão perfeita, mas acredito que, perto da maioria, eu enxergue mais ou menos assim:     


Bem, imagine que a paisagem inteira é a visão normal, sem nenhum problema. A minha visão é a do quadro central, sem os riscos. Como se pode ver, ela é bastante limitada e numa área central. Se eu quiser enxergar uma área maior, preciso virar o rosto para o lado ou para a área desejada, como uma tela lcd de tablet ou câmera fotográfica. Mas não com a mesma resolução e nem profundidade, pois também há este prejuízo: a qualidade da visão cai e não há uma profundidade exata de imagem, ou seja, as coisas parecen mais em “2D” (duas dimensões) do que em “3D” (três dimensões) para mim. Assim, para ver melhor o quadro negro, mesmo que não na sua totalidade, eu me posicionava em um local central.
          Explicar isso hoje já parece um pouco confuso, imaginem na primeira e segunda série do ensino fundamental. Então, eu não explicava. Resumia-se ao “sim porque sim”, o que nem sempre era aceito pelos coleguinhas e a chateação era quase semanal. Mas eu sobrevivi, segui sentada nas cadeiras da frente e no meio.
          Neste período de colégio, a pressão dos meus olhos permaneceu relativamente estável, com visitas regulares ao oftalmologista (a cada 3 meses geralmente), e fazendo principalmente os exames de campimetria e de “curva de pressão”. Este último mede a pressão durante um ciclo de 24 horas, a cada 3 horas, para verificar se ela permanece estável em diferentes horários do dia, começando as 6 da manhã. Era, e ainda é, um dia de folga.
          Medir a pressão do olho não é nada doloroso, mas no período de medida da noite é necessário que não haja nenhuma entrada de luz, e que esteja o mais escuro possível, para que a luz não altere em nada o sono ou alguma atividade fisiológica que possa interferir na pressão intraocular.  Recomendo que não assistam a filmes de terror caso precisem fazer este exame.
          A campimetria é um exame que analisa o campo visual e deve ser feito na clínica, em um aparelho semelhante a este:


          É um exame extremamente cansativo e que dura cerca de 40 minutos.
          Infelizmente, meus olhos já estão no limite de hoje, e além disso vocês já devem ter mais coisas a fazer, então, no próximo post (amanhã se tudo correr bem), volto a contar como funciona este exame e como a minha história vem se desenrolando ao longo dos anos J
          Muito obrigada a todos pelas sugestões e pela força!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Glaucoma, explique-se

         Antes de seguirmos com os “Meus Passos”, que provavelmente se alongarão por muitos posts, irei explicar de maneira mais abrangente o Glaucoma em si tentando ser, a pedidos, mais didática do que o primeiro post. Depois, retorno ao lado egocêntrico deste blog.
          No primeiro post, já explicamos que o nervo óptico sofre uma pressão e que esta pressão, quando alterada, pode prejudicar o campo visual. Esta desregulação da pressão é o glaucoma.
          Mas como isso acontece?

          Vejamos esta figura do olho:
Figura 2 Anatomia geral do olho humano, vista lateral Fonte: modificado de Cerpo Oftalmologia

          O Humor Aquoso, que fica logo atrás da nossa córnea (parte transparente frontal do olho) é um líquido que tem a função de nutrir nosso olho e mantê-lo úmido. Este líquido é recebido em uma quantidade adequada, porém, ele deve ser drenado, para permitir que mais líquido entre e mantenha o olho nutrido e limpo. Assim, essa maquinaria de recebimento e drenagem de líquido deve estar em equilíbrio. É como o funcionamento do esgoto em uma casa: a água chega mas também deve ser escoada, se o esgoto não funcionar direito, provavelmente teremos problemas graves.
          Mas voltemos ao olho.
          Quando esta entrada de líquido não consegue ser drenada como deveria, há uma pressão alta de líquido dentro desta câmara (imagine um balão enchendo de água e nada de saída), e, consequentemente, as fibras do nervo óptico, que deveriam sofrer uma pressão normal deste líquido, acabam sendo comprimidas devido a esta pressão elevada. Esta compressão levará a um bloqueio do fluxo normal causando uma falta de nutrição às fibras e consequentemente, sua morte, resultando na perda de visão em maior ou menor grau.
          A perda de visão ocorre justamente porque os sinais que deveriam chegar ao cérebro, não chegam. Esta pressão alta acabou danificando tanto o nervo quanto células que produzem as imagens, como os cones e bastonetes, que estão na nossa retina (camada interna do olho).
          Devemos entender o glaucoma como um processo conjunto, não apenas uma coisa acontecendo, mas sim, várias ao mesmo tempo: o líquido é produzido normalmente, porém, não é drenado; assim, a pressão sobe; a pressão subindo, acaba comprimindo fibras do nervo óptico e células da retina, levando à perda de setores da visão.
          Um exame, chamado de campimetria computadorizada, avalia o campo visual do paciente e assim é feito o controle se a perda está aumentando ou se mantendo estável. Este exame, no meu caso, é feito três vezes ao ano, leva cerca de 35-40 minutos nos dois olhos e requer uma atenção constante. É extremamente cansativo e explicarei o procedimento em breve, com imagens do próprio exame.

          Quando a pressão está acima do normal (geralmente maior do que 20mmHg, ou milímetros de mercúrio) usam-se colírios que procuram facilitar esta drenagem de humor aquoso como deve, mas nem sempre este medicamentos conseguem fazer isto, e intervenções cirúrgicas são necessárias.
          Veremos em futuros posts quais os procedimentos mais comuns e porquê esta drenagem nem sempre funciona como deveria. Ou as hipóteses para isto.

          Abaixo, segue vídeo que talvez esclareça melhor esta doença, em entrevista ao Dr. Vital Paulino Costa feita no programa do Jô em junho deste ano.
                       
                                                         

           Bem, novamente obrigada pela força que tenho recebido, principalmente pelo facebook. E não esqueçam que qualquer dúvida, crítica, sugestão, mandem um email para: marianasony@gmail.com E, finalizando: nem sempre postarei todos os dias ou a cada dois dias; é comum eu estar com a visão cansada e não conseguir digitar por muito tempo.         

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Meus Passos - I

        Antes de tudo, gostaria de agradecer aos meus amigos e interessados que vieram falar comigo, comentaram e sugeriram o que eu deveria escrever aqui. Quero poder ajudar as pessoas que possuem esta doença e aos que tem interesse, além daqueles que se preocupam comigo.
          E a primeira coisa que sugeriram foi que eu contasse como aconteceu comigo.
          A história, na sua íntegra, é grande e ainda não terminou. Talvez eu precise de algumas postagens e nem sempre será na ordem exata, pois algumas coisas descobri depois, mas tentarei contar tudo o que eu for lembrando.
          Na verdade, eu comecei a me preocupar com o glaucoma fazem uns 5 ou 6 anos, quando as coisas realmente pioraram. Antes disso, eu vivia relativamente normal (e ok, não vou entrar no mérito do que é normal, digamos que uma das coisas é poder dirigir) – pegava ônibus (mesmo que alguns eu confundisse, como T8 com T6), atravessava ruas e essas coisas que praticamente todo mundo faz.
          Mas vamos tentar manter as coisas na ordem cronológica: minha mãe percebeu que tinha algum problema sério quando eu tinha cerca de 8 anos de idade, e ela me pediu para lhe alcançar algo em cima da mesa de visibilidade relativamente fácil (provavelmente um garfo ou colher) e eu fiquei “tateando” para buscar. Fui ao médico e menos de uma semana depois, estava na mesa de cirurgia. O que aconteceu foi que, no oftalmologista, ele mediu minha pressão e ela estava muito acima do recomendado e eu já havia perdido campo visual considerável.
          Como não se percebeu isso antes?
          Hoje em dia, as crianças são submetidas ao “teste do olhinho”, coisa que, quando nasci, em meados dos anos 80, não existia. Entre outras coisas, este teste verifica se há uma tendência ao glaucoma, mede pressão, etc. Além disso, o glaucoma é uma doença silenciosa, começa devagar e não causa dor – não no meu caso – e, quando é percebida, já houve uma perda grave. E mais, o glaucoma, modo geral, se manifesta em pessoas com mais de 50-60 anos. Eu fui sorteada. E nos dois olhos.
          Finalmente, o glaucoma, por mais que seja um problema de visão, não é visível na grande maioria dos casos – quando eu falar mais sobre as complicações que viriam, verão que isto nem sempre é uma coisa boa.

          Vou mostrar uma foto do meu próprio olho:


Você percebe alguma anormalidade?
          A princípio não, porém, em volta da íris (a parte escura, o “colorido” do olho), podemos ver uma leve “névoa” mais clara, que aliás, fica verde clara quando exposta à luz negra (isso é bem interessante, tentando levar para o lado divertido). Esta descoloração foi provocada pelo glaucoma. Provavelmente pela falta de irrigação do meu nervo a todas as regiões do olho, levando a morte de células naquela região.
          Mas espere: nem todas as pessoas que tem essa falha é devido ao glaucoma, ou também, nem todas que tem glaucoma a terão – cada caso é um caso, o glaucoma não tem um resultado igual em todas as pessoas. O que eu conto neste blog, se restringe ao meu caso, podendo acontecer de maneira semelhante ou não com outras pessoas.

          Voltemos a cronologia. 
          A primeira cirurgia que fiz consistia em um pequeno corte na esclerótica (parte branca do olho), que permitia que o líquido acumulado, aquele que gera a pressão mais alta e acaba pressionando o nervo óptico (explicado no post anterior), fosse drenado, ajudando a baixar esta pressão intraocular (PIO ou IOP do inglês Intra Ocular Pressure). A pressão do meu olho deveria ficar entre 11-12. Em um olho não glaucomatoso, a pressão pode ser bem mais alta, além de 20, porém, no meu caso, como meu nervo óptico já é sensível e danificado em diversos setores, quanto mais perto de 10 o valor estava, melhor.
          Esta primeira cirurgia funcionou bem, por quase 20 anos. Apesar de eu ter a minha visão reduzida em quase 50%, a que eu tinha ainda me permitiam enxergar o necessário para que eu vivesse “normalmente”.
          As coisas começaram a mudar mesmo por volta de 2007. Mas isso eu conto na próxima postagem, e prometo inserir mais fatores técnicos e científicos sobre a doença.
          Não esqueça: sugestões, dúvidas, críticas, utilize o campo de comentários abaixo ou envie um e-mail para marianasony@gmail.com

          Até mais J


domingo, 11 de setembro de 2016

Bem vindos

Bem vindos ao blog “De Olho no Glaucoma”!
          Me chamo Mariana Coltro e sou portadora de glaucoma, o que eu tenho chamado de “câncer do olho”, já que sua tendência é piorar e nem sempre as medidas preventivas que tomamos funcionam. Como acontece no meu caso.
          Fiz este blog com o objetivo de trazer ao conhecimento de todos o que esta doença é, o que causa e um pouco – talvez muito – sobre minha vida e como ela mudou conforme a doença foi piorando.
          Mas, o que é o glaucoma?
          Ao longo das postagens, pretendo explicar com maiores detalhes o que é, os tipos e o que pode causar esta doença ainda sem cura, apenas com controle através de medicamentos. Hoje, explicarei de forma sucinta.
          O olho é constituído de diversas estruturas, como mostrado na figura 1, entre elas, o humor aquoso, logo atrás da córnea, onde está o cristalino. Este líquido deve ter uma pressão estável, e, para isto, é produzido em tal quantidade e drenado também, na quantidade necessária para manter esta pressão. De maneira geral, quando não há equilíbrio entre esta produção e drenagem, há uma alteração na pressão e então, comprometimento de células e estruturas que possibilitam a visão.
          No glaucoma, o campo visual é afetado, pois o nervo óptico sofre com esta alteração de pressão e ele leva os sinais que então serão interpretados pelo cérebro. Como o portador de glaucoma perdeu, devido a alta da pressão ou de grande alterações desta, muitos destes sinais, o campo visual fica comprometido devido a perda de células que deveriam transmitir estes sinais ao cérebro através deste nervo.

          

Figura 1 Estrutura geral da anatomia do olho humano, onde Aqueous humor refere-se ao humor aquoso, na câmara anterior (Anterior chambrer, Lens ao cristalino e Cornea à córnea Fonte: Vision and Eye Health Vison and Eye Health

          A medida que a pressão se eleva, os axônios (parte da célula nervosa responsável pela condução dos impulsos elétricos) do nervo óptico são comprimidos no ponto de saída do globo ocular no disco óptico. Essa compressão bloqueia o fluxo axonal do citoplasma (parte da célula entre sua membrana e seu núcleo, onde ficam localizadas as mitocôndrias, retículos, etc.) dos corpos celulares neuronais da retina nas fibras do nervo óptico que levam ao cérebro, causando morte das fibras envolvidas por falta de nutrição.
          Esta perda, infelizmente, é irreversível – a visão já perdida não é recuperada, e, diferentemente da miopia e astigmatismo, por exemplo, o óculos não tem eficácia.
          A pressão é medida por um oftalmologista em períodos regulares e para manter esta pressão, seguidamente são usados colírios. Caso o organismo não responda aos medicamentos, existem várias técnicas cirúrgicas para tentar controlar. Porém, tudo dependerá de cada pessoa e de cada organismo.
          No meu caso, houve perda de cerca de 50-55% da visão total (dos dois olhos) e faço um controle no oftalmologista por vezes exaustivo para que não haja mais perda.
         
          Nas próximas postagens entrarei em maiores detalhes tanto sobre os tipos de glaucoma quanto aos tratamentos conhecidos.

          Qualquer dúvida ou se houve falta maior de explicações sobre a doença, fique à vontade para comentar ou mandar um email para marianasony@gmail.com. Responderei com maior prazer, nos dias em que minha visão não estiver muito cansada!!


          Obrigada pela visita