quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Meus passos - II

Olá
          Anteontem resolvi escrever alguns fatores mais técnicos do glaucoma em si, mas confesso que prefiro escrever sobre mim e o meu caso especificamente. Claro que segurei explicando fatores mais técnicos quando estes se fizerem necessários, mas hoje quero seguir com a minha história.
          Eu não lembro muito bem da minha primeira cirurgia, e como nosso cérebro é bem seletivo nesse setor, lembro apenas de uma parte ruim: logo que acordei. Diferente das intervenções que viriam depois, esta primeira, devido à gravidade da situação, foi feita nos dois olhos na mesma cirurgia. Lembro apenas de acordar e ver algo branco.
          Eram as gazes em cima dos meus olhos, que formavam o curativo.
          Havia também uma pomada, que não permitiam que eu abrisse tanto assim os olhos. Foi uma sensação chata, mas logo que acordei meus pais falaram comigo e depois disso, eu não lembro muito de como foi a recuperação. Lembro das mais recentes, que foram bastante incômodas e aquela sensação de que nunca vai acabar. Mas isso eu conto mais adiante.
          As coisas boas dessa primeira operação eu lembro melhor, como as visitas em casa, meus amigos e parentes e dos presentes. Claro que não poderia esquecer dos presentes, principalmente o que meu pai me deu, um kart vermelho que funcionava com pedais, todo de metal, rodas de borracha, banco forrado e até luzes. Isso deixou pra trás um pouco de todo o desconforto.
          Mas eu tinha que voltar ao colégio, e vocês sabem como o colégio é. Como os seus colegas de colégio são. Principalmente se temos um problema que nós mesmos não sabemos explicar.
          Era o meu caso, eu tinha um problema de visão que os óculos não resolviam, que não é visível aos outros mas que eu preciso de mais cuidados do que muitos.

          Uma pequena parada: por que o óculos não resolvem? (dezenas já me perguntaram isso) Bem, o óculos resolve os problemas com  miopia, astigmatismo, hipermetropia, etc., que são problemas de foco ou ajuste da lente; o glaucoma é um tipo de cegueira, onde a visão perdida, está perdida, a porção de células da retina ou de células do nervo óptico foram destruídos ou lesados gravemente. Assim, o óculos não tem como criar uma imagem que simplesmente não é vista pelo olho e processada pelo cérebro.
          O que ocorre, em muitos casos, inclusive no meu, é que, juntamente com o glaucoma, surgem outras complicações, como o astigmatismo, e então, usamos um óculos para este “defeito”, tornando a visão mais nítida, mas não a parte do glaucoma, e sim do astigmatismo (ou miopia, ou outra que tenha correção) 

E então que, voltando à escola, eu tinha que sentar na frente. Eu tinha que ter lugar exclusivo, no meio e na frente, o mais próximo possível do quadro negro.
          Por que no meio? Bem, aqui mais uma parada.
          O glaucoma faz com que você perca, inicialmente, a parte periférica da visão, e ela vai sendo perdida de fora para dentro, logo, seu campo visual vai se restringindo ao campo central. Como eu nunca enxerguei com total campo de visão (ou se enxerguei era muito criança e não lembro), é difícil fazer um comparativo com pessoas que possuem uma visão perfeita, mas acredito que, perto da maioria, eu enxergue mais ou menos assim:     


Bem, imagine que a paisagem inteira é a visão normal, sem nenhum problema. A minha visão é a do quadro central, sem os riscos. Como se pode ver, ela é bastante limitada e numa área central. Se eu quiser enxergar uma área maior, preciso virar o rosto para o lado ou para a área desejada, como uma tela lcd de tablet ou câmera fotográfica. Mas não com a mesma resolução e nem profundidade, pois também há este prejuízo: a qualidade da visão cai e não há uma profundidade exata de imagem, ou seja, as coisas parecen mais em “2D” (duas dimensões) do que em “3D” (três dimensões) para mim. Assim, para ver melhor o quadro negro, mesmo que não na sua totalidade, eu me posicionava em um local central.
          Explicar isso hoje já parece um pouco confuso, imaginem na primeira e segunda série do ensino fundamental. Então, eu não explicava. Resumia-se ao “sim porque sim”, o que nem sempre era aceito pelos coleguinhas e a chateação era quase semanal. Mas eu sobrevivi, segui sentada nas cadeiras da frente e no meio.
          Neste período de colégio, a pressão dos meus olhos permaneceu relativamente estável, com visitas regulares ao oftalmologista (a cada 3 meses geralmente), e fazendo principalmente os exames de campimetria e de “curva de pressão”. Este último mede a pressão durante um ciclo de 24 horas, a cada 3 horas, para verificar se ela permanece estável em diferentes horários do dia, começando as 6 da manhã. Era, e ainda é, um dia de folga.
          Medir a pressão do olho não é nada doloroso, mas no período de medida da noite é necessário que não haja nenhuma entrada de luz, e que esteja o mais escuro possível, para que a luz não altere em nada o sono ou alguma atividade fisiológica que possa interferir na pressão intraocular.  Recomendo que não assistam a filmes de terror caso precisem fazer este exame.
          A campimetria é um exame que analisa o campo visual e deve ser feito na clínica, em um aparelho semelhante a este:


          É um exame extremamente cansativo e que dura cerca de 40 minutos.
          Infelizmente, meus olhos já estão no limite de hoje, e além disso vocês já devem ter mais coisas a fazer, então, no próximo post (amanhã se tudo correr bem), volto a contar como funciona este exame e como a minha história vem se desenrolando ao longo dos anos J
          Muito obrigada a todos pelas sugestões e pela força!

Nenhum comentário:

Postar um comentário