quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Mais mudanças

Meus passos VI – Mais mudanças
          “Você sabe que quanto mais próximo estiver do seu destino, mais se deixará levar para longe dele” – Paul Simon
          No início deste século, terminei a escola e decidi fazer Faculdade de Biologia. Meu objetivo era estudar Direito Ambiental, proteger principalmente os animais. Eu lia muitas revistas de ciência no colégio, como National Geographic e a Superinteressante, que naquela época eu considerava científica. Lembro de outras revistas, como “Os caminhos da Terra”. Hoje eu ainda leio, porém as revistas mudaram – segue a National Geographic, mas somei à esta, Scientific American, Astronomy, Nature, Science, etc., e também o modo: agora eu as leio no tablet. Com o sucessivo desgaste da minha visão e a perda gradual desta, não consigo mais lê-las na forma impressa, enquanto que no tablet posso dar zoom. Bem, retornando ao assunto do início, estas revistas me motivaram muito para o lado da ciência e, como eu queria proteger o que tínhamos na natureza, também resolvi fazer Direito.
          Era de se esperar que eu não conseguisse fazer dois cursos ao mesmo tempo – sei que algumas pessoas o fazem, mas não me encaixo neste nível superior de humanidade – e eu acabei decidindo permanecer no Direito, devido às oportunidades que este poderia oferecer – maiores chances de concursos, mais vagas em empregos e, sem ser hipócrita, melhores chances de salário mais robustos.
          Além disso – lamentavelmente - dois professores da Biologia não mantinham minha motivação muito alta, digamos assim.
          Como expliquei em posts anteriores, meus olhos enxergam de maneira complementar, ou seja, um “ajuda” o outro, focando de maneira única e mantendo a musculatura ao redor do olho contraída, de maneira que juntos, minha visão torna-se aceitável em diversas situações. No caso do uso de microscópio, esta situação não encaixava-se no aceitável. Como muitos sabem, os microscópios possuem duas oculares, e, quando você gira os botões de foco nas laterais, teoricamente tudo se ajeita.
          Não no meu caso.
          O foco nunca é alcançado, e, quando está próximo de ser bom, a visão é tão forçada que sinto dores muito fortes, o que me levou mais uma vez ao meu antigo oftalmologista. Ele disse que eu não conseguiria ter foco em um microscópio, e a explicação dada foi a que me referi antes. Ele forneceu um atestado, o qual eu entreguei na Secretaria do curso, e fiquei com cópias para mostrar aos professores, que deveriam encontrar métodos alternativos para suprir as aulas práticas que usavam este aparelho.
          A grande maioria aceitou e achamos soluções viáveis – ou conectávamos o microscópio a uma televisão, o que para mim era a melhor solução, ou eu recebia material com os desenhos do que deveria estar vendo no microscópio. Dois professores resolveram acumular a parte prática na prova teórica, o que não teria problema algum, caso eu, mesmo presente nas aulas práticas (o que, no meu caso não era necessário obviamente), não precisasse ouvir algumas “brincadeirinhas”, que no fundo você sente que não são de todo somente brincadeirinhas, como por exemplo: “A Mariana vem com este atestado só para poder matar aula prática desta cadeira”, entre outras. Pena que este tipo de fala não foi somente uma ou duas vezes. A mais motivadora foi “Mariana tu não tens condições de te formares em Biologia se não puderes utilizar um microscópio”.
          Vejamos, eu era bem mais nova, estava cansada de fazer duas faculdades e em uma delas, apesar de ter o lado motivador, existiam estas pessoas que, naquele tempo, acabaram influenciando para que eu optasse pelo Direito. E, complementando, eu não sabia muito sobre meus direitos, além de desconhecer muito das leis que poderiam ter fornecido um maior aporte.
          A história do Direito vocês já conhecem, e sabem que fui para São Paulo quando estava já formada e trabalhando na área. E também que eu tomaria decisões após aqueles ocorridos. Sim, eu resolvi retornar à Biologia.

          Antes de continuar, preciso fazer uma pausa aqui. Após retornar de São Paulo, voltei ao Dr. Araújo, meu primeiro oftalmologista, que achou melhor uma profissional especializada diretamente em glaucoma cuidasse de mim, pois estava em um patamar delicado e seria preferível que ela abordasse meu caso. A partir deste momento, a excelente Drª Paula Gross, médica oftalmologista especialista e mestre em glaucoma, vêm tratando minha visão da melhor maneira que é possível.
          Ela me explicou um pouco mais sobre meu problema, sem deixar de me incentivar sempre e que eu não desistisse do que eu gostaria de fazer, e eu sou muito grata por isto, mesmo tendo meus momentos nem sempre tão esperançosos.
          Enfim.
         
           Depois de ter cursado aproximadamente um ano e meio, faltavam 2 anos e meio a 3 anos para concluir a Faculdade de Ciências Biológicas, agora conhecedora dos meus direitos e, mais importante do que isso, de alguns limites que eu teria.
          A maioria das minhas provas eram ampliadas e preferencialmente em negrito, devido a um contraste maior, facilitando a leitura. A fonte ideal era Arial de tamanho 14 ou 16, o que ainda permanece quando preciso ler de forma impressa.
          As aulas práticas foram elaboradas da maneira mais adequada e o caminho parecia estar sendo bem trilhado.
          Passado cerca de um ano do meu retorno à Biologia, com visitas trimestrais ao médico, a pressão ocular de ambos os olhos voltou a subir.

          É difícil dizer que fatores diretamente afetam a pressão do olho; um conhecido é o esforço contínuo repetido, na região supra abdominal, próximo ao osso esterno, localizado entre as costelas (região destacada da figura abaixo). O esforço contínuo nesta região é chamado tecnicamente de Manobra de Valsalva. Executamos esta manobra, por exemplo, quando levantamos muito peso com os braços, e esforços que utilizam a região torácica. 
          
Fonte: modificado de Sogab – Ensino e Saúde

          Não era o meu caso. Eu já havia deixado de praticar jiu jitsu há algum tempo, justamente por esta recomendação, e, como referi, na maioria dos casos é complicado dizer o porquê da suba da pressão. Aumento de hormônios corticoides também podem auxiliar no incremento da Pressão Intraocular (PI), como mostram alguns estudos (em breve postarei artigos relacionados ao tema), o que talvez fosse meu caso. A questão é que a pressão estava aumentando e tentamos controlá-la com novos colírios. Caso a resposta não fosse positiva – ou seja, diminuição da PI – a solução seria a que, naquele momento, foi – cirurgia.
          Desta vez seria diferente da primeira e eu ainda lembro delas.
          Próxima postagem, relatarei o que se seguiu.

          Obrigada novamente a todos que vêm acompanhando minha história!