quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Começam as Mudanças

Meus passos V – Começam as mudanças

“A dor pode nos fazer lembrar que estamos vivos, mas o amor nos faz lembrar por quê” – Trystan Owaln Hughes

          Primeiramente, me desculpem pela demora em escrever este post, minha visão nem sempre coopera com o tempo dos meus pensamentos.
          Bem, contava eu que uma situação em particular, no meu emprego de advogada júnior em um escritório de Porto Alegre, havia mostrado que eu realmente não podia agir de maneira como uma pessoa de visão estável.
          Eu trabalhava oito horas ao dia, com intervalo de 1 hora e meia para almoço, em um escritório muito bonito, amplo e conhecido. Foi meu primeiro emprego, excetuando os estágios, depois da minha formatura em Direito. Eu tinha um bom salário para quem havia a recém saído da universidade e fui chamada bem rápido para a entrevista. Confesso que, na sala em que eu estava, não era a mais comunicativa, ficava mais “na minha” e não socializava tanto quanto a maioria das colegas. Não costumo compartilhar minha vida pessoal com muitas pessoas – a primeira vez que faço isso é agora, justamente em um blog que qualquer pessoa pode ler, vejam a ironia das coisas.
          Depois de alguns meses de trabalho, na verdade quase um ano, em um dia comum, fui na agência bancária que ficava no térreo do prédio, retirar meu salário. Estava eu sentada aguardando meu número ser chamado, porém, quando olhei para o placar onde mostrava os números – daqueles placares pretos com grandes letras e números vermelhos – só enxerguei algo embaçado, com algumas luzes no meio, mas não conseguia distinguir o que era. Mexi no olho, nada. Virei a cabeça para os lados e as pessoas também estavam embaçadas. Naquele momento, fiquei assustada.
          Peguei meu celular, na época com teclas, o que facilitou para eu discar sem precisar da ajuda das outras pessoas, e telefonei para uma das minhas colegas do escritório, pedindo que ela fosse até o banco e me ajudasse, pois estava com algum problema na visão.
          Ela desceu e resolvemos chamar um táxi, minha mãe estava em casa e era para lá que eu voltaria naquele dia.
          Fomos ao médico, meu antigo oftalmologista, no mesmo dia.
          Ele fez alguns exames, mediu a pressão, verificou o fundo do olho (este exame observa o estado da retina, a camada mais interna do olho), e disse que provavelmente eu estava com fadiga no nervo óptico, e que, se fosse isso realmente, a sensação iria passar em 3 a 5 dias. Complementou que, mesmo assim, achava que eu deveria consultar com um colega, em São Paulo, especialista em glaucoma, o Dr. Imamura, pois ele teria melhores meios para saber se havia alguma lesão mais grave ou se era realmente fadiga.
          Então, decidimos ir para São Paulo.
          Até o momento, eu não estava preocupada.a visão embaçada havia passado e parecia que realmente era apenas uma fadiga ocular. Falei com o pessoal responsável do escritório, que ficaria cerca de uma semana fora, e fomos.
          No médico, fiz diversos exames, alguns já velhos conhecidos, como medida de pressão, exame de fundo de olho, campimetria computadorizada (aquela que eu detesto, e descrevi neste post) e mais alguns que eu nunca havia feito, inclusive de acuidade visual. Sobre estes exames falarei futuramente.
          Conversei com o médico e ele me explicou melhor as coisas, e ali começava a “cair a ficha” do que eu tinha e do que viria.
          Como o Dr. Araújo, meu oftalmologista desde que eu era criança havia dito, tive uma fadiga ocular, por esforço contínuo, que, nesta ocasião, não levaram à lesão do nervo óptico, mas que, se repetido o esforço, meu nervo seria ainda mais prejudicado e eu poderia perder áreas da visão. Como já disse algumas vezes, meu nervo óptico possui lesões devido ao glaucoma, e não posso me dar ao luxo de arriscar mais.
          Oito horas de trabalho por dia são insuportáveis para meus olhos, eu poderia suportar, no máximo, 4 horas ao dia, e sem grandes esforços. E nem sempre todos os dias, devido ao cansaço. 
          Descobri também que minha visão, em algumas situações, ficava melhor sem óculos do que com. Isso devia-se ao fato de que meus olhos enxergam de maneira diferente, como expliquei na postagem passada, onde o esquerdo possui mais campo porém qualidade pior, e o direito possui uma melhor acuidade mas campo visual menor. Para enxergar, por exemplo, letras pequenas e próximas, meus olhos fazem um ajuste que, com óculos, fica prejudicado. Meus olhos deram um jeito de focar de uma maneira que, com os óculos, este foco fica prejudicado.
          Aprendi que a partir deste momento, meus hábitos teriam que mudar. Eu teria que descansar a visão em períodos de tempo durante leituras ou qualquer esforço visual – vejam o que isto significa para quem formou-se em Direito, onde a leitura é imprescindível.
          Senti que não poderia mais trabalhar como vinha fazendo, e que talvez não pudesse seguir no mesmo local de trabalho.
          Recebi proposta de trabalho de outro escritório, este menor, mas onde eu trabalharia menos tempo por dia, e parecia ser mais tranquilo. Era o que eu precisava no momento.

          Tomei algumas outras decisões, que mudaram bastante o que eu estava fazendo. Voltei para a Faculdade de Biologia, que eu havia iniciado junto com o Direito e abandonado dois anos depois.  Mas isto eu conto no próximo post, pois também será longo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O "Stand by" da visão

Meus passos IV - O "Stand by" da visão

Terminei a postagem passada falando sobre o não reconhecimento das pessoas.
          Sempre tive dificuldade nisso, porém, durante a faculdade de Direito – no último ano, isso piorou. Eu seguidamente confundia as pessoas, algumas até ficavam indignadas – e com razão, eu as trocava com pessoas totalmente diferentes. Quando alguma amiga então, trocava a cor do cabelo, me confundia muito.
          Porém, quando as pessoas estavam paradas, eu as distinguo bem. Por quê?

          Bem, além da perda periférica considerável devido ao glaucoma, este também prejudicou bastante a acuidade visual, ou seja, a qualidade da minha visão, e gerou um pouco de astigmatismo. O astigmatismo, por si só, é reversível com o uso de óculos -  e de vez em quando eu uso – mas, no post anterior expliquei que no olho direito e no esquerdo, meu tipo de visão é diferente, e que os dois trabalham juntos para que eu tenha uma visão relativamente razoável. Neste “trabalham juntos” é que entra o que eu chamo de “stand by” da minha visão, ou seja, eu demoro para focalizar uma imagem, como uma câmera com foco automático.
Figura de uma imagem desfocada e logo após, com foco Fonte: Blog aberto até de madrugada

          A imagem da esquerda mostra como muitas pessoas – inclusive eu – com glaucoma enxergam quando visualizam algo rapidamente, e na direita, após alguns segundos fixando a imagem (provavelmente não perfeitamente como você leitor, esteja vendo, mas pensemos nas proporções). Existe um tempo que demoramos para fixar a imagem, para focalizá-la da maneira ideal para cada caso, e este é o “stand by” que me refiro. Óculos não conserta isso no meu caso. Deixa um pouco mais nítido do que se eu não usar, mas como existe este stand by, na maioria das vezes até atrapalha, razão pela qual, uso óculos somente em ambientes “parados”, como para assistir televisão.
          Sim, na televisão há movimentos dos personagens, objetos, etc., porém, aí entra outra diferença: na televisão, as imagens são em 2 dimensões (depois falarei do efeito 3D no meu caso), e isso facilita muito.
          Devido às lesões das células da retina, como explicado em posts iniciais, chamadas de cones e bastonetes principalmente, a noção de profundidade também foi afetada. Assim, além do stand by, há uma dificuldade na distinção da profundidade e distância de objetos – um somatório de coisas!!
          Essa perda de profundidade faz com que eu não tenha uma noção de tamanhos de buracos, por exemplo, ou quando vou descer escadas, a não ser que elas tenham marcações amarelas, que facilitam bastante.
          Todos esses fatores foram aumentando com a idade, dificultando a minha visualização em diversos setores e, obviamente, prejudicando minha qualidade de vida de modo geral. Afinal, quando você não reconhece alguém na rua, normalmente não há tempo para explicar todos estes fatores, e nem sempre intimidade suficiente. “Então, acaba resumindo-se a um “desculpe não te reconheci” e, dependendo da pessoa, a resposta “está precisando de óculos”.
          Falando em idade, deixo claro aqui que meu olho não funciona conforme minha idade real, mas trata-se de um olho com “mais idade”, um olho semelhante a de uma pessoa bem mais velha, e assim, as coisas tendem a funcionar ou melhor, deixar de funcionar, mais rapidamente. E este foi um fator importante para que por volta de 2007, no último ano da Faculdade de Direito, eu começasse a usar material ampliado ou que eu pudesse ler no computador.
          Naquele ano, resolvi entrar no site da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), onde eu estudava, e pesquisar sobre os direitos de pessoas com dificuldade neste quesito. Acabei por descobrir que alunos chamados especiais tem direito a receber material ampliado, e que a Faculdade deve se adequar às dificuldades do aluno, o que considero bastante justo e de acordo com o artigo 5º da Consituição Federal, que define a igualdade de direitos; do contrário seria obviamente impossível.
          Descobri também, o Decreto Lei que define os direitos de deficientes, incluindo os visuais, e que a conceitua:
Artigo 5º §1º I letra “c”: “c) deficiência visual: cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores”
          Me encaixo neste caso e grande parte das pessoas com glaucoma também. Aconselho que, aqueles que se encaixam, saibam dos seus direitos, pois são vários e bastante importantes. Em breve farei uma postagem direcionada para isto, pois se essa doença não é nada agradável, podemos torna-la mais aceitável, afinal, os direitos estão aí para melhorar nossa qualidade de vida.
          Nunca tive grandes incomodações em relação aos meus direitos dentro da faculdade. Evidente que um ou outro professor duvidam da sua palavra e eu precisava mostrar meu laudo médico para comprovar o que tenho. Não sei com qual objetivo ou qual seria a vantagem de eu pedir uma prova ampliada, mas infelizmente estamos rodeados de pessoas criativas e que usariam isto, de alguma maneira, em benefício próprio.
          Finalmente, com alguma dificuldade, consegui terminar a Faculdade de Direito e inicie minha carreira em um escritório de advocacia, como advogada júnior.
          Como eu não havia, ainda, digerido muito bem a idéia de que a minha visão estava pior, trabalhei 8 horas por dia, como todos os colegas, somente explicando que nem sempre reconheceria a todos imediatamente, e relatando meu problema de maneira superficial.
          Até o dia que meu olho definitivamente deu “erro” e parou, tudo ficou nebuloso e eu não conseguia ler nada na minha frente, estava tudo embaçado e fora de foco.
          Isto sim, faria com que eu realmente precisasse me ater ao problema e aceitá-lo, fosse o que fosse. Mas isto eu conto na próxima postagem.

          Muito obrigada pela visita e aguardo vocês em breve!

domingo, 18 de setembro de 2016

Meus passos III – A tal da Campimetria Computadorizada

          Olá e bem vindos novamente!          
          Como eu contei no post passado, desde muito cedo faço principalmente dois exames para verificar o andamento do glaucoma. Um deles, a “curva de pressão” (uma vez por ano) e a Campimetria (de uns 20 anos para cá, computadorizada, tenho que repetir cerca de 3 a 4 vezes ao ano). Este serve para analisar especificamente o campo visual do paciente, através de uma máquina onde você senta, apoia o queixo, um dos seus olhos é vendado e você deve olhar para um ponto fixo central no meio de um microambiente, sem desviar o olho em nenhum momento e clicando em um botão, que fica na sua mão, a cada sinal de luz, seja ele forte ou fraco, ao redor deste ponto fixo.
          Tudo bem, vou explicar melhor, assim parece fácil e até lembra o que os oftalmologistas e seus auxiliares gostam de dizer que “parece um videogame”. Não, não parece.

          Isso:

          E, quando comecei a fazer este exame, pelos anos 90, isso:

          São jogos de videogames.
          Agora uma imagem do que vemos no exame de campimetria:

          Bem, foi a imagem “menos pior” que encontrei, mas prometo que, quando eu for fazer este exame de novo, farei fotos e quem sabe um vídeo de como realmente é. De uma ou outra forma, acho que está longe de parecer um videogame. Nem um Telejogo, que me perdoem os saudosistas.
          Ali na parte central, onde está um círculo preto, é onde tenho que ficar olhando. Ao redor deste ponto, piscarão pequenos pontos de luz, em maior ou menor intensidade, acima, ao lado, embaixo. O olho deve permanecer fixo no meio, pois a cada mexida, por menor que seja, o computador identificará e caso estes desvios se repitam 3 vezes, é recomendável fazer o exame novamente.
          Cada vez que uma luz destas pisca, mesmo que seja muito fraco, devo apertar um botão, que estã na minha mão, em um tipo de pequeno manche. O computadpr repete os pontos periodicamente, isso faz com que ele saiba se vi realmente o ponto ou se achei que vi. Cada olho leva cerca de 20 minutos nesta “brincadeira”, e sempre com o olho fixo. Como já falei e volto a repetir,é bastante cansativo.
          Falando em cansativo, este exame é recomendado que seja feito quando a pessoa está bem descansada, e acredito que os motivos sejam óbvios – já é algo chato quando estou bem acordada, se estivesse cansada provavelmente dormiria.
          Algumas vezes, de tanto fixar no ponto,a visão vai ficando escura, e não posso fazer nada além de piscar os olhos. Mas é um exame necessário para quem tem esta doença.
          Após o seu término, a máquina imprime o resultado, que, no meu caso, foi este (em meados deste ano):


          A esquerda o olho esquerdo, a direita o olho direito. O resultado principal é aquele círculo quase totalmente escuro, que representa o campo visual que a máquina apresenta. O campo visual que enxergo é a parte mais clara. A parte em preto é o que não detectei. Ou seja, onde perdi o campo visual. Em uma visão não-glaucômica, o campo ficará quase totalmente branco.
          Olhando assim, significa que meu campo inferior é praticamente cego e minha visão direita tem um campo muito menor. Porém, através de outros exames, como o P.A.M. (explicarei em posts posteriores), verificou-se que a visão da esquerda, apesar de ter um maior campo, tem uma qualidade pior, uma acuidade baixa, enquanto que o olho direito, apesar de um campo visual menor, possui uma acuidade melhor. Juntamos os dois e temos a visão dos meus olhos. É pouca, mas ainda me permite escrever aqui.
          Em termos de campo visual, este tem se mantido; faço este exame desde muito jovem, logo após a primeira cirurgia, e os resultados não eram tão diferentes. Meu campo era maior, sim, mas pouca coisa. Infelizmente, para quem já tem pouco, retirar um mínimo já é muito. E por volta de 2007 eu senti isso, quando fazia faculdade de Direito na PUCRS. Pela primeira vez tive que pedir uma prova ampliada ao professor, e finalmente comecei a entender meus direitos e limitações dentro desta situação, o que nunca poderei reclamar da Universidade, que sempre forneceu todo o tipo de material que precisei nestes momentos.
          Com dificuldade eu ainda conseguia ler os artigos das leis nos infinitos Vade Mecums, mas não demorou muito para que eu precisasse comprar uma lupa em formato de régua, feita para ler livros. Mas isso não era desconfortável, o chato era não reconhecer as pessoas que passavam por mim, e algumas pensando que eu não lhes dava “olá” por antipatia...
          No próximo dia eu continuo, esta parte merece uma postagem à parte.
          E muito obrigada novamente à força que muitos tem me dado, está sendo muito importante para mim e sempre que quiserem tirar dúvidas, me chamem por e-mail (marianasony@gmail.com) ou pelo facebook, Mariana Coltro.
          Até a próxima!

          

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Meus passos - II

Olá
          Anteontem resolvi escrever alguns fatores mais técnicos do glaucoma em si, mas confesso que prefiro escrever sobre mim e o meu caso especificamente. Claro que segurei explicando fatores mais técnicos quando estes se fizerem necessários, mas hoje quero seguir com a minha história.
          Eu não lembro muito bem da minha primeira cirurgia, e como nosso cérebro é bem seletivo nesse setor, lembro apenas de uma parte ruim: logo que acordei. Diferente das intervenções que viriam depois, esta primeira, devido à gravidade da situação, foi feita nos dois olhos na mesma cirurgia. Lembro apenas de acordar e ver algo branco.
          Eram as gazes em cima dos meus olhos, que formavam o curativo.
          Havia também uma pomada, que não permitiam que eu abrisse tanto assim os olhos. Foi uma sensação chata, mas logo que acordei meus pais falaram comigo e depois disso, eu não lembro muito de como foi a recuperação. Lembro das mais recentes, que foram bastante incômodas e aquela sensação de que nunca vai acabar. Mas isso eu conto mais adiante.
          As coisas boas dessa primeira operação eu lembro melhor, como as visitas em casa, meus amigos e parentes e dos presentes. Claro que não poderia esquecer dos presentes, principalmente o que meu pai me deu, um kart vermelho que funcionava com pedais, todo de metal, rodas de borracha, banco forrado e até luzes. Isso deixou pra trás um pouco de todo o desconforto.
          Mas eu tinha que voltar ao colégio, e vocês sabem como o colégio é. Como os seus colegas de colégio são. Principalmente se temos um problema que nós mesmos não sabemos explicar.
          Era o meu caso, eu tinha um problema de visão que os óculos não resolviam, que não é visível aos outros mas que eu preciso de mais cuidados do que muitos.

          Uma pequena parada: por que o óculos não resolvem? (dezenas já me perguntaram isso) Bem, o óculos resolve os problemas com  miopia, astigmatismo, hipermetropia, etc., que são problemas de foco ou ajuste da lente; o glaucoma é um tipo de cegueira, onde a visão perdida, está perdida, a porção de células da retina ou de células do nervo óptico foram destruídos ou lesados gravemente. Assim, o óculos não tem como criar uma imagem que simplesmente não é vista pelo olho e processada pelo cérebro.
          O que ocorre, em muitos casos, inclusive no meu, é que, juntamente com o glaucoma, surgem outras complicações, como o astigmatismo, e então, usamos um óculos para este “defeito”, tornando a visão mais nítida, mas não a parte do glaucoma, e sim do astigmatismo (ou miopia, ou outra que tenha correção) 

E então que, voltando à escola, eu tinha que sentar na frente. Eu tinha que ter lugar exclusivo, no meio e na frente, o mais próximo possível do quadro negro.
          Por que no meio? Bem, aqui mais uma parada.
          O glaucoma faz com que você perca, inicialmente, a parte periférica da visão, e ela vai sendo perdida de fora para dentro, logo, seu campo visual vai se restringindo ao campo central. Como eu nunca enxerguei com total campo de visão (ou se enxerguei era muito criança e não lembro), é difícil fazer um comparativo com pessoas que possuem uma visão perfeita, mas acredito que, perto da maioria, eu enxergue mais ou menos assim:     


Bem, imagine que a paisagem inteira é a visão normal, sem nenhum problema. A minha visão é a do quadro central, sem os riscos. Como se pode ver, ela é bastante limitada e numa área central. Se eu quiser enxergar uma área maior, preciso virar o rosto para o lado ou para a área desejada, como uma tela lcd de tablet ou câmera fotográfica. Mas não com a mesma resolução e nem profundidade, pois também há este prejuízo: a qualidade da visão cai e não há uma profundidade exata de imagem, ou seja, as coisas parecen mais em “2D” (duas dimensões) do que em “3D” (três dimensões) para mim. Assim, para ver melhor o quadro negro, mesmo que não na sua totalidade, eu me posicionava em um local central.
          Explicar isso hoje já parece um pouco confuso, imaginem na primeira e segunda série do ensino fundamental. Então, eu não explicava. Resumia-se ao “sim porque sim”, o que nem sempre era aceito pelos coleguinhas e a chateação era quase semanal. Mas eu sobrevivi, segui sentada nas cadeiras da frente e no meio.
          Neste período de colégio, a pressão dos meus olhos permaneceu relativamente estável, com visitas regulares ao oftalmologista (a cada 3 meses geralmente), e fazendo principalmente os exames de campimetria e de “curva de pressão”. Este último mede a pressão durante um ciclo de 24 horas, a cada 3 horas, para verificar se ela permanece estável em diferentes horários do dia, começando as 6 da manhã. Era, e ainda é, um dia de folga.
          Medir a pressão do olho não é nada doloroso, mas no período de medida da noite é necessário que não haja nenhuma entrada de luz, e que esteja o mais escuro possível, para que a luz não altere em nada o sono ou alguma atividade fisiológica que possa interferir na pressão intraocular.  Recomendo que não assistam a filmes de terror caso precisem fazer este exame.
          A campimetria é um exame que analisa o campo visual e deve ser feito na clínica, em um aparelho semelhante a este:


          É um exame extremamente cansativo e que dura cerca de 40 minutos.
          Infelizmente, meus olhos já estão no limite de hoje, e além disso vocês já devem ter mais coisas a fazer, então, no próximo post (amanhã se tudo correr bem), volto a contar como funciona este exame e como a minha história vem se desenrolando ao longo dos anos J
          Muito obrigada a todos pelas sugestões e pela força!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Glaucoma, explique-se

         Antes de seguirmos com os “Meus Passos”, que provavelmente se alongarão por muitos posts, irei explicar de maneira mais abrangente o Glaucoma em si tentando ser, a pedidos, mais didática do que o primeiro post. Depois, retorno ao lado egocêntrico deste blog.
          No primeiro post, já explicamos que o nervo óptico sofre uma pressão e que esta pressão, quando alterada, pode prejudicar o campo visual. Esta desregulação da pressão é o glaucoma.
          Mas como isso acontece?

          Vejamos esta figura do olho:
Figura 2 Anatomia geral do olho humano, vista lateral Fonte: modificado de Cerpo Oftalmologia

          O Humor Aquoso, que fica logo atrás da nossa córnea (parte transparente frontal do olho) é um líquido que tem a função de nutrir nosso olho e mantê-lo úmido. Este líquido é recebido em uma quantidade adequada, porém, ele deve ser drenado, para permitir que mais líquido entre e mantenha o olho nutrido e limpo. Assim, essa maquinaria de recebimento e drenagem de líquido deve estar em equilíbrio. É como o funcionamento do esgoto em uma casa: a água chega mas também deve ser escoada, se o esgoto não funcionar direito, provavelmente teremos problemas graves.
          Mas voltemos ao olho.
          Quando esta entrada de líquido não consegue ser drenada como deveria, há uma pressão alta de líquido dentro desta câmara (imagine um balão enchendo de água e nada de saída), e, consequentemente, as fibras do nervo óptico, que deveriam sofrer uma pressão normal deste líquido, acabam sendo comprimidas devido a esta pressão elevada. Esta compressão levará a um bloqueio do fluxo normal causando uma falta de nutrição às fibras e consequentemente, sua morte, resultando na perda de visão em maior ou menor grau.
          A perda de visão ocorre justamente porque os sinais que deveriam chegar ao cérebro, não chegam. Esta pressão alta acabou danificando tanto o nervo quanto células que produzem as imagens, como os cones e bastonetes, que estão na nossa retina (camada interna do olho).
          Devemos entender o glaucoma como um processo conjunto, não apenas uma coisa acontecendo, mas sim, várias ao mesmo tempo: o líquido é produzido normalmente, porém, não é drenado; assim, a pressão sobe; a pressão subindo, acaba comprimindo fibras do nervo óptico e células da retina, levando à perda de setores da visão.
          Um exame, chamado de campimetria computadorizada, avalia o campo visual do paciente e assim é feito o controle se a perda está aumentando ou se mantendo estável. Este exame, no meu caso, é feito três vezes ao ano, leva cerca de 35-40 minutos nos dois olhos e requer uma atenção constante. É extremamente cansativo e explicarei o procedimento em breve, com imagens do próprio exame.

          Quando a pressão está acima do normal (geralmente maior do que 20mmHg, ou milímetros de mercúrio) usam-se colírios que procuram facilitar esta drenagem de humor aquoso como deve, mas nem sempre este medicamentos conseguem fazer isto, e intervenções cirúrgicas são necessárias.
          Veremos em futuros posts quais os procedimentos mais comuns e porquê esta drenagem nem sempre funciona como deveria. Ou as hipóteses para isto.

          Abaixo, segue vídeo que talvez esclareça melhor esta doença, em entrevista ao Dr. Vital Paulino Costa feita no programa do Jô em junho deste ano.
                       
                                                         

           Bem, novamente obrigada pela força que tenho recebido, principalmente pelo facebook. E não esqueçam que qualquer dúvida, crítica, sugestão, mandem um email para: marianasony@gmail.com E, finalizando: nem sempre postarei todos os dias ou a cada dois dias; é comum eu estar com a visão cansada e não conseguir digitar por muito tempo.         

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Meus Passos - I

        Antes de tudo, gostaria de agradecer aos meus amigos e interessados que vieram falar comigo, comentaram e sugeriram o que eu deveria escrever aqui. Quero poder ajudar as pessoas que possuem esta doença e aos que tem interesse, além daqueles que se preocupam comigo.
          E a primeira coisa que sugeriram foi que eu contasse como aconteceu comigo.
          A história, na sua íntegra, é grande e ainda não terminou. Talvez eu precise de algumas postagens e nem sempre será na ordem exata, pois algumas coisas descobri depois, mas tentarei contar tudo o que eu for lembrando.
          Na verdade, eu comecei a me preocupar com o glaucoma fazem uns 5 ou 6 anos, quando as coisas realmente pioraram. Antes disso, eu vivia relativamente normal (e ok, não vou entrar no mérito do que é normal, digamos que uma das coisas é poder dirigir) – pegava ônibus (mesmo que alguns eu confundisse, como T8 com T6), atravessava ruas e essas coisas que praticamente todo mundo faz.
          Mas vamos tentar manter as coisas na ordem cronológica: minha mãe percebeu que tinha algum problema sério quando eu tinha cerca de 8 anos de idade, e ela me pediu para lhe alcançar algo em cima da mesa de visibilidade relativamente fácil (provavelmente um garfo ou colher) e eu fiquei “tateando” para buscar. Fui ao médico e menos de uma semana depois, estava na mesa de cirurgia. O que aconteceu foi que, no oftalmologista, ele mediu minha pressão e ela estava muito acima do recomendado e eu já havia perdido campo visual considerável.
          Como não se percebeu isso antes?
          Hoje em dia, as crianças são submetidas ao “teste do olhinho”, coisa que, quando nasci, em meados dos anos 80, não existia. Entre outras coisas, este teste verifica se há uma tendência ao glaucoma, mede pressão, etc. Além disso, o glaucoma é uma doença silenciosa, começa devagar e não causa dor – não no meu caso – e, quando é percebida, já houve uma perda grave. E mais, o glaucoma, modo geral, se manifesta em pessoas com mais de 50-60 anos. Eu fui sorteada. E nos dois olhos.
          Finalmente, o glaucoma, por mais que seja um problema de visão, não é visível na grande maioria dos casos – quando eu falar mais sobre as complicações que viriam, verão que isto nem sempre é uma coisa boa.

          Vou mostrar uma foto do meu próprio olho:


Você percebe alguma anormalidade?
          A princípio não, porém, em volta da íris (a parte escura, o “colorido” do olho), podemos ver uma leve “névoa” mais clara, que aliás, fica verde clara quando exposta à luz negra (isso é bem interessante, tentando levar para o lado divertido). Esta descoloração foi provocada pelo glaucoma. Provavelmente pela falta de irrigação do meu nervo a todas as regiões do olho, levando a morte de células naquela região.
          Mas espere: nem todas as pessoas que tem essa falha é devido ao glaucoma, ou também, nem todas que tem glaucoma a terão – cada caso é um caso, o glaucoma não tem um resultado igual em todas as pessoas. O que eu conto neste blog, se restringe ao meu caso, podendo acontecer de maneira semelhante ou não com outras pessoas.

          Voltemos a cronologia. 
          A primeira cirurgia que fiz consistia em um pequeno corte na esclerótica (parte branca do olho), que permitia que o líquido acumulado, aquele que gera a pressão mais alta e acaba pressionando o nervo óptico (explicado no post anterior), fosse drenado, ajudando a baixar esta pressão intraocular (PIO ou IOP do inglês Intra Ocular Pressure). A pressão do meu olho deveria ficar entre 11-12. Em um olho não glaucomatoso, a pressão pode ser bem mais alta, além de 20, porém, no meu caso, como meu nervo óptico já é sensível e danificado em diversos setores, quanto mais perto de 10 o valor estava, melhor.
          Esta primeira cirurgia funcionou bem, por quase 20 anos. Apesar de eu ter a minha visão reduzida em quase 50%, a que eu tinha ainda me permitiam enxergar o necessário para que eu vivesse “normalmente”.
          As coisas começaram a mudar mesmo por volta de 2007. Mas isso eu conto na próxima postagem, e prometo inserir mais fatores técnicos e científicos sobre a doença.
          Não esqueça: sugestões, dúvidas, críticas, utilize o campo de comentários abaixo ou envie um e-mail para marianasony@gmail.com

          Até mais J


domingo, 11 de setembro de 2016

Bem vindos

Bem vindos ao blog “De Olho no Glaucoma”!
          Me chamo Mariana Coltro e sou portadora de glaucoma, o que eu tenho chamado de “câncer do olho”, já que sua tendência é piorar e nem sempre as medidas preventivas que tomamos funcionam. Como acontece no meu caso.
          Fiz este blog com o objetivo de trazer ao conhecimento de todos o que esta doença é, o que causa e um pouco – talvez muito – sobre minha vida e como ela mudou conforme a doença foi piorando.
          Mas, o que é o glaucoma?
          Ao longo das postagens, pretendo explicar com maiores detalhes o que é, os tipos e o que pode causar esta doença ainda sem cura, apenas com controle através de medicamentos. Hoje, explicarei de forma sucinta.
          O olho é constituído de diversas estruturas, como mostrado na figura 1, entre elas, o humor aquoso, logo atrás da córnea, onde está o cristalino. Este líquido deve ter uma pressão estável, e, para isto, é produzido em tal quantidade e drenado também, na quantidade necessária para manter esta pressão. De maneira geral, quando não há equilíbrio entre esta produção e drenagem, há uma alteração na pressão e então, comprometimento de células e estruturas que possibilitam a visão.
          No glaucoma, o campo visual é afetado, pois o nervo óptico sofre com esta alteração de pressão e ele leva os sinais que então serão interpretados pelo cérebro. Como o portador de glaucoma perdeu, devido a alta da pressão ou de grande alterações desta, muitos destes sinais, o campo visual fica comprometido devido a perda de células que deveriam transmitir estes sinais ao cérebro através deste nervo.

          

Figura 1 Estrutura geral da anatomia do olho humano, onde Aqueous humor refere-se ao humor aquoso, na câmara anterior (Anterior chambrer, Lens ao cristalino e Cornea à córnea Fonte: Vision and Eye Health Vison and Eye Health

          A medida que a pressão se eleva, os axônios (parte da célula nervosa responsável pela condução dos impulsos elétricos) do nervo óptico são comprimidos no ponto de saída do globo ocular no disco óptico. Essa compressão bloqueia o fluxo axonal do citoplasma (parte da célula entre sua membrana e seu núcleo, onde ficam localizadas as mitocôndrias, retículos, etc.) dos corpos celulares neuronais da retina nas fibras do nervo óptico que levam ao cérebro, causando morte das fibras envolvidas por falta de nutrição.
          Esta perda, infelizmente, é irreversível – a visão já perdida não é recuperada, e, diferentemente da miopia e astigmatismo, por exemplo, o óculos não tem eficácia.
          A pressão é medida por um oftalmologista em períodos regulares e para manter esta pressão, seguidamente são usados colírios. Caso o organismo não responda aos medicamentos, existem várias técnicas cirúrgicas para tentar controlar. Porém, tudo dependerá de cada pessoa e de cada organismo.
          No meu caso, houve perda de cerca de 50-55% da visão total (dos dois olhos) e faço um controle no oftalmologista por vezes exaustivo para que não haja mais perda.
         
          Nas próximas postagens entrarei em maiores detalhes tanto sobre os tipos de glaucoma quanto aos tratamentos conhecidos.

          Qualquer dúvida ou se houve falta maior de explicações sobre a doença, fique à vontade para comentar ou mandar um email para marianasony@gmail.com. Responderei com maior prazer, nos dias em que minha visão não estiver muito cansada!!


          Obrigada pela visita