segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Retomando



Retomando

          Há alguns anos, cerca de 5 ou 6anos, quando eu percebi que minha visão havia piorado mais, e que nem ônibus eu conseguia identificar para onde ia, fiquei bastante chateada.
          O glaucoma eu já tenho faz tempo, mais de vinte anos, mas até 2012,aproximadamente, eu ainda conseguia atravessar ruas e identificar para onde os ônibus iam – e como eu tenho carteirinha, ando de graça, o que facilita bastante. Porém, a pressão do olho voltou a oscilar e mais complicações vieram – como uma oftalmologista me disse: “teu olho é de idoso, Mariana”. E por mais que isso não tenha sido dito de maneira muito delicada, é verdade. Além disso, o glaucoma não costuma avisar quando vai piorar, e nem sempre há uma explicação para a oscilação da pressão intraocular (o que faz o glaucoma aumentar, como já explicado em postagens anteriores). Assim, minha visão piorou a ponto de eu não atravessar mais a rua sozinha, muito menos pegar ônibus.
          Houveram outras alterações devido à isso, mas não entrarei hoje em detalhes. O importante é que deixei de ver muitas pessoas, isolei-me de muita gente, e afastei-me de muita coisa.
          E só agora, há alguns meses, estou retomando.
          A maioria dos meus amigos entendeu, a maioria está novamente ao meu lado, e eu agradeço pela compreensão. Mais do que isso, fiz mais amigos e resolvi não esconder nem evitar de falar o que tenho. Agradeço a amizade de todos; amigos são necessários, ninguém vive sozinho.
          E, ultimamente, tenho eu mesma analisado meu facebook, instagram, etc. e noto que também retomei as minhas saídas, encontros, jantas, etc. Infelizmente, não consigo sempre ir a todos os eventos. Quando há muita agitação, locais que uso muito os olhos, digamos assim - principalmente os mais movimentados, aqueles com mais gente – não consigo ficar muito tempo, acredito que os delicados músculos que temos ao redor dos nossos olhos, no meu caso, sintam uma fadiga maior, e isso causa dor. Dores que às vezes permanecem por um dia, ou mais.
          Mesmo com essa limitação, consegui, semana passada, ir a três eventos em dias seguidos: um jantar das minhas queridas colegas da academia, uma comemoração de final de ano no Instituto Goethe com meus amigos do tempo do Direito/Língua Japonesa, e organizei o aniversário de um dos meus melhores amigos. Domingo eu teria outro aniversário, mas infelizmente não consegui ir. Não por dor, mas para evita-la, pois já estava bastante cansada.
          Talvez para muitos isso pareça pouco, mas acreditem, para mim ainda não é. O próximo passo? Não sei ainda, espero que sejam os passos na rua, Uma coisa por vez. 

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sábado, 18 de novembro de 2017

Ser e Ter

O Ser e o Ter

Creio que existam coisas que só pensamos ou só damos importância quando passamos por elas. Por mais que alguém diga "eu sei pelo que você passa", e que isso seja um sinal de solidariedade, essa pessoa não sabe, no sentido real da palavra. Mesmo que eu tenha o mesmo problema que outros tem, tanto eu não sei o que os outros sentem quanto eles não sabem o que eu sinto.
Isso não impede, de modo algum, que as pessoas se ajudem, que empatizem com o que passa o outro, que tentem sim, saber o que ele passa. Que imaginem ao menos. E, no mínimo, entendam.
Eu sei que não passei por muita coisa que poderia ser pior, posso imaginar e respeito quem passa. Mas sei que tive de mudar meu modo de pensar em diversas situações. Tive e tenho que me adaptar à muita coisa - algumas simples para alguns, outras nem tanto. Algumas que sigo sem entender o porquê, por exemplo, a razão de eu não conseguir ver filmes 3D em cinema e sim em telas led (expondo um exemplo bem fútil mesmo).
Porém, algo importante e que, fico feliz em estar mudando, é a importância do Ser e do Ter.
Você já se perguntou se é uma pessoa mais Ser do que Ter ou o que importa é Ter do que Ser?
Você poder fazer esta escolha?
Alguns diriam que é mais fácil Ser do que Ter para aqueles que não podem Ter, pois, do contrário, Teriam. Provavelmente estas pessoas preferem o Ter, querem Ter, e esqueceram um pouco como Ser.
Cito dois exemplos bem conhecidos de duas pessoas que Tinham, mas preferiram Ser: São Francisco de Assis e Sidarta Gautama. Os dois possuíam, Tinham muito. Eram de famílias abonadas, e abandonaram todo o Ter para que pudessem Ser mais, Ser humanos. Pregavam, de maneira semelhante, que a base do sofrimento é o desejo - entenda-se aqui o desejo como ganância, não o desejo de aprender, de ajudar, o desejo de Ser mais engrandece.
Francisco e Gautama são extremos, eu não saberia atingir o Ser que eles atingiram. Acredito que não Tenha o suficiente para "somente" Ser. Gosto das minhas coisas, gosto da minha coleção de National Geographic e dos meus jogos de videogame.
Todavia, aprendi muito quando meu problema de glaucoma aumentou, e quando a visão que Tinha já não Seria mais a mesma. Tive de aprender a Ser mais do que ela me oferecia. E isso abriu um novo leque de aprendizado.
Posso ainda não Ter todas as respostas, e nem tudo o que "preciso" (e quanto mais se tem, parece que mais se "precisa" Ter, na visão de diversas pessoas), mas estou aprendendo a Ser. E está valendo a pena.
Ninguém Será mais por Ter mais.

Ainda falarei deste assunto, conforme meu aprendizado.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Amizades e compreensão

Amizades e compreensão

Não quero, com este texto, despertar "pena" ou passar a idéia de coitadismo, não é a intenção. A intenção é que, além do meu caso, as pessoas tenham mais compreensão  principalmente aquelas que se intitulam "amigas de verdade", mas que nem sempre agem como.
Não é fácil ter uma deficiência, ou algo que lhe limite, principalmente se seu problema não é aparente, não é visível (no meu caso, irônico ser justamente de visão). Nestes casos, você espera que aquelas pessoas mais próximas te compreendam mesmo sem você precisar dar explicações - na verdade, penso que numa amizade de verdade, não são necessárias explicações demasiadas, amizade não requer comprovações nem provas. Amizade requer amizade, e o que ela inclui.
Se alguém não entende isso, pode ser que tenha sido seu amigo, em um tempo diferente da sua vida, mas não nesse momento. Em um tempo, talvez, que você tenha oferecido o que ela gostaria de receber, ou o personagem que você tenha representado na vida dela. A amizade é pelo que a pessoa pode oferecer, e isso não inclui só coisas boas.

Eu me sentia - e confesso que me sinto, às vezes (cada vez menos, graças a Deus) - culpada por não conseguir fazer uma coisa ou outra, por não ser um dia bom, por estar com dor nos olhos ou pelo médico ter dito que seria melhor um repouso.
E isso não existe, essa "culpa" nem deve ser cogitada, simplesmente porque você não a quer, você não a produziu e, sinceramente, eu tenho cada dia mais me distanciado daqueles que não fazem questão de compreender, já que, infelizmente, existem aqueles que pensam antes em si do que na possibilidade de a pessoa PODER.
Claro que eu entendo quando dizem "Ah, mas aquela pessoa estava insistindo que você fizesse algo com ela pois queria estar junto de ti, queria tua companhia".
Sim, porém, como num relacionamento, o ciúme é bom até um ponto, acima de certa medida, deixa de ser "sente ciúme pois gosta de voce" para ser quase uma doença, um egoísmo.
Um egoísmo, é o que ocorre nos casos em que, mesmo o outro sabendo que você tem limitações, mesmo dizendo que "te entende", e mesmo você dando as explicações que seriam desnecessárias, na verdade a pessoa não "te entende", e, no seu egoísmo, se fecha a você.
O meu conselho, se você passou por isso, se não te compreenderam ou até acharam que você estava mentindo: mande esta pessoa...
Com todo respeito aos que lêem este blog.

"Quem quiser que entenda, quem não gostar, que se ofenda" , meu novo lema


domingo, 30 de julho de 2017

Mudanças

Como alguns podem ter notado, mudei o nome do blog

"Meu Glaucoma" passa a ser o novo nome, já que, basicamente, eu uso este blog para falar do que acontece comigo..
Falando com algumas pessoas que também tem glaucoma, notei que cada caso é um caso bem diferente. Como acontece em várias doenças, evidente, cada caso é um caso, mas vi que não há um padrão, onde você possa encaixar este ou aquele, ou dizer que todos que tem glaucoma não podem dirigir, por exemplo - tem pessoas que tem glaucoma em um olho só, e então podem; outras, tem nos dois olhos, como eu, mas a doença está controlada e não perderam tanto campo visual - já no meu caso, perdi mais de 50% de visão e não posso dirigir. Em alguns casos, a pessoa não precisa de repouso de tempos em tempos para o olho descansar, diferente do meu caso, que preciso "recarregar a bateria" dos olhos de horas em horas - a cada 5 ou 6 horas mais ou menos.
Algumas pessoas, a maioria, adquiriram esta doença após os 50 anos de idade, outras, onde eu me encaixo, em fase infantil.

...e por aí vai, existem centenas de diferenças entre as pessoas que possuem glaucoma, e como eu foquei mais em mim mesma -  não por ser mais ou menos grave, mas por eu saber melhor o que falar o que tenho e sinto (obviamente), decidi trocar o nome.

Esporadicamente, anexarei notícias ou artigos, mas me dedicarei mais a escrever sobre mim mesma do que tentar ser um blog científico.

Pretendo criar uma página no facebook também em breve, espero que gostem ;)

terça-feira, 25 de abril de 2017

Adaptações

Adaptações


          Esses dias (6 de abril), ouvi de duas pessoas diferentes a mesma frase.

          Uma delas eu nunca havia visto na vida, era motorista, e conversou um pouco comigo; o tempo suficiente para eu explicar que tenho glaucoma e essa coisa toda, e a outra pessoa é alguém muito especial e que eu prezo demais. Não o vejo tanto quanto gostaria mas ele é muito importante e muitas vezes, exemplo para minhas atitudes. Este sabe bem mais da minha vida do que o primeiro, porém, depois de algum tempo conversando, eu ouvi “Você tem este problema, já teve que deixar de fazer tanta coisa, e ainda tem, como mantém essa alegria de viver? Você parece ser uma pessoa alegre, uma pessoa que leva isso adiante.”.
          Apesar de eu não achar que represento alguém super alegre, acredito que Adaptação às novas situações seja a maneira que encontrei.
          Nem sempre levei isso na hoa, nem sempre aceitei para mim mesma (acho que esse é o passo mais difícil), mas, como eu escrevi em outra postagem, chega um momento em que se perguntar o “porquê, porquê”, não faz mais sentido.
          Essa semana mesmo eu estava conversando com uma amiga que me conhece desde os tempos em que eu era DJ do Cord (uma balada aqui de Porto Alegre, também já falei em algum post anterior sobre isso), e que conversávamos todos os dias praticamente.
          Porém, fiquei um tempo afastada.
          Me fechei, me isolei um tempo de muitas pessoas. E acredito que esse tempo foi necessário, pois eu precisava deste período para que eu mesma aceitasse minhas limitações e como eu teria que me readaptar depois de várias cirurgias e de ter que deixar de fazer coisas que eu estava acostumada a fazer. Me acostumar com a idéia, por exemplo, de que jamais poderei dirigir, mas que existe família, amigos, caronas, táxis, uber, cabify, etc  Me adaptar e ver que, mesmo enfrentando situações ruins, tenho tempo para fazer coisas que muitas pessoas gostariam e que não conseguem por falta do tempo mesmo.
          Trago dois exemplos: academia, que me faz muito bem - e que recomendo a todos, pois não faz bem apenas ao corpo, diria que, principalmente, faz bem à mente. Graças a minha disponibilidade, faço academia praticamente todos os dias. Além disso, consigo estudar bastante. Não tanto, certamente, quanto uma pessoa que possui a visão 100%, que conseguiria estudar cerca de 5, 6h ou mais por dia, mas cpnsigo estudar cerca de 2h para concurso. Não é muito, mas muita gente não tem nem meia hoara para estudar. Ademais, devido a minha deficiência visual, presto concurso concorrendo nas vagas especiais.
          É uma facilidade? Não acho que seja tanto, afinal a linha de corte segue a mesma, a prova segue a mesma e como, mesmo tendo tempo, não consigo estudar tanto assim por dia, acredito que minhas chances serão semelhantes aos outros. Talvez o número de concorrentes sea menor? Sim, provavelmente, mas o maior concorrente nisso tudo sou eu mesma.
         
          Escrevendo rapidamente hoje, lembrei de outra questão que às vezes pode surgir: a culpa.
          Nos sentirmos culpados por, apesar de termos uma grande limitação, usufruirmos de uma “boa vida”, pode ser normal. Mas disso falarei no próximo post.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A Inexistência do "E Se"

        Quando uma pessoa nasce com um problema, acredito que ela já se adapte ao que ela pode e ao que ela não pode fazer. Não que isso seja melhor ou pior do que o caso daquelas que podiam fazer algo e vão perdendo essa capacidade com o tempo, devido ao problema aumentar, como foi e é o meu caso, por isso, aqui só poderei falar sob este prisma, então, já peço desculpas se, de alguma maneira, parecer que eu “desvalorizo” àqueles que já têm alguma deficiência desde muito jovens.
          Bem, muitas coisas que eu fiz, tive que deixar de fazer. Algumas por opção, como a “carreira” de organizadora de festas e depois DJ. Falarei deste caso, dos tantos “E se” que perambulam pela minha cabeça.

          Evidente que eu não era nenhum Julius Rigotto em termos de organização de festas – quem dera! – organizei umas3 ou 4 festas, uma com temática japonesa, a Psycho Dolls, onde a música era pop e rock japonês, assim como músicas de anime. A festa tinha até um mini sushi bar, com sakerinha de morango, sushi, onigiri e kani. As outras eram focadas no rock indie, chamada Paranóia, e fizemos outra chamada Disturbia, visando o pop e house. Foi bem divertido, principalmente a Psycho Dolls, que fizemos cerca de 10 edições da festa.
          Fui convidada para ser DJ ainda na NEO, pela Sil Mello, e depois fiquei como DJ fixa na festa Hot, que acontecia no Cord, organizada por Matheus Paim.
          Concomitante a toda essa função, eu terminava a faculdade de Direito, retornava à Biologia e começava o Mestrado, como já contei em postagens anteriores.
          Um pouco antes de iniciar o Mestrado, o Cord fechou, e isso fez com que eu escolhesse priorizar o Mestrado, claro, e deixar a “carreira” de DJ para outra hora. Fui convidada para algumas festas depois, mas queria me focar nos estudos.
          E SE eu soubesse que, depois do Mestrado, teria que suspender o Doutorado?
          E aqui eu falarei do título deste post: Nestes casos, em muitos dos casos em que falamos do passado, o E SE não existe.
          Pensamos nele. Eu penso nele. Mas, quando começo a pensar nos tantos “e se” que poderia ter feito meu futuro diferente e talvez mais “proveitoso”, tento tirar esse pensamento da cabeça.
          Situações diversas nos remetem ao “e se eu não tivesse feito aquilo, e se eu tivesse escolhido outra coisa”, etc etc. Mas não adianta. Sabemos disso, sabemos que o passado não pode ser mudado, o que foi feito, foi feito. Resta acreditar que foi por algum motivo que futuramente entenderemos.
          “E Se minha visão fosse normal?”
          Acho que essa foi a pergunta que mais me fiz, mas não a faço mais. Dá praticamente na mesma que perguntar “por quê”?
          É mais fácil perguntar “para que”, isso nos leva a algum lugar, ou nos motiva a.

          O “e se” do passado só serve para que não venhamos a repetir os erros,  mesmo que em muitos casos, não tenham sido feitos com intenção de erro. Dificilmente alguém vai deixar de fazer um Mestrado para seguir na carreira de DJ – a não ser que esta esteja realmente “bombando” em todos os sentidos. O que não era meu caso, eu era uma pessoa conhecida mas longe de ser chamada para discotecar na Inglaterra ou coisa assim; além disso, sempre priorizei a parte mais “científica” de mim, sempre gostei mais.
          A vida tem dessas ironias. A todo momento.
         
          Acredito que o melhor, atualmente seja tentar adiantar situações que podem vir a acontecer e então evitar fazer algo que talvez eu não possa mais. A probabilidade de erro, penso eu, é menor do que apenas fazer sem pensar e depois ter de deixar de fazer. No futuro, este “e se” não vai ser de muita valia.

          E Se você não tivesse lido este texto até aqui, estaria se sentindo diferente?

          Agora não faz diferença, você leu. (a não ser aqueles que leram essa frase antes - tudo depende e tem exceções afinal)